Nina Delgado *
Uma vez o vovô foi atropelado e aí o médico falou para ele “você não vai andar mais”. Aí ele falou assim “onde lá se viu?”. Quando ele foi embora pra casa, não tinha andador na época, então, ele catou uma cadeira da mamãe. Ele saia pela rua, igualzinho andador: pegava a cadeira e ia caminhando, apoiado na cadeira, quando cansava, ele sentava.
Daí um dia, chegou alguém lá em casa, não me lembro quem, bateu e falou assim com a mãe: “ó, o senhor Juvenal está lá embaixo, no Manoel Honório, sentado na cadeira”. Ele morava no Bairu. Bairu era morro acima. Então, pra descer, ele desceu de boa, depois ele não tava conseguindo voltar. Aí a minha mãe falou assim: “gente que horror, vamo lá”. Pega o carro e desce pá pegar o vovô.
Chegamos lá, menina… ele parou o Manoel Honório pra ajudar ele a entrá dentro do ônibus. Ele era grandão, fortão. E ele não tava andando. Como que entra com Juvenal dentro do ônibus? Juvenal foi a sensação do Manoel Honório aquele dia. Foi uma confusão para enfiar Juvenal dentro do ônibus e ele não quis ir de carro. Não, ele quis ir ônibus. E veio galera para enfiar dentro do ônibus Juvenal. E a cadeira.
A mamãe morria de vergonha, porque ele mobilizou. Mas aí fala assim “E daí? E daí?” Que com isso, uma quantidade de gente que ia lá visitar ele, sabe? Que chegava lá, sentava e ele contava. Ah, ele era poeta. Ele falava poesia e um monte das poesias também era em francês. Como ninguém nunca soube francês, a gente não sabe se isso é verdade.
Então acho legal que essa história que eu contei do vovô tem muito a ver com isso, que foi uma pessoa que vem ao mundo para fazer isso, para conhecer pessoas, ninguém vive isolado. Ele morreu com… não lembro quantos anos.
Vovô era bem velinho, mas ele tinha vontade de viver. Conversava com todo mundo. Com a cadeirinha dele lá sentado lá no passeio, todo mundo que passava: “fala aí seu Juvenal! E aí vovô?”, mexia com ele, sabe?
Ele era uma pessoa feliz.
Muito mais feliz que muita pessoa que, às vezes, nem é tão velho, e é ranzinza.
* História de Sueli de Campos, Juiz de Fora, transcrita por Nina Delgado.
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