Helbert Ignacio Silva
Descobri Game of Thrones, a série da HBO baseada nas Crônicas de Gelo e Fogo, épico literário de George R. R. Martin, em 2015. Àquela altura, a produção que estreou em 2011, já era um sucesso de público e crítica, arrebatando corações e mentes de todas as idades. A experiência de ter algumas dezenas de episódios à disposição para “maratonar” foi um ponto alto da minha vida de cinéfilo/crítico amador.
Tudo era encantador, deslumbrante, extraordinário. O roteiro denso e intrigante, com toda a trama política de Westeros como fio condutor. O elenco e as atuações que me levavam ao ápice da empatia pelos personagens – ou da antipatia, caso um Lannister estivesse em cena. Uma fotografia soberba, que se encarregava de costurar toda a narrativa, resultando num espetáculo visual raramente alcançado na história da teledramaturgia.
Os domingos à noite se transformaram em celebrações da cultura pop/geek. Nenhum fã de carteirinha ousava marcar qualquer compromisso por volta das 22h, quando os episódios eram exibidos na TV por assinatura e no streaming, ou às 23h, quando a temporada coincidia com o finado horário de verão brasileiro – Deus o tenha! Até porquê, com a popularidade da série, as redes sociais e os portais de notícia eram inundados por spoilers. Ficar sabendo de um plot twist antes de assistir um episódio, um filme ou ler um livro traz um gosto amargo, um abatimento, uma sensação que não devemos desejar nem mesmo para os nossos inimigos.
Portanto, caro leitor, não trataremos de spoilers aqui. No entanto, é impossível construir este texto sem mencionar que Game of Thrones (ou GoT, como ficou conhecida), cuja 8ª e última temporada foi ao ar em 2019, terminou de forma, digamos, minimamente “controversa”. Já dizia o ditado popular: “A expectativa é a mãe da decepção”. E o fato é que o final da série frustrou muita gente.
Os motivos são variados, dependendo do que cada espectador esperava. E todo mundo espera alguma coisa, de um domingo à noite – peço emprestado os versos do grande Lulu Santos para esta adaptação. Podemos especular o que levou a isso. Dentre as inúmeras possibilidades, acredito que o descompasso entre a série e as Crônicas, atualmente disponíveis em cinco volumes, mas planejadas por Martin para serem concluídas em sete livros, causou sérias dificuldades para a produção da HBO.
Afinal, como dar sequência e finalizar uma história cuja base ainda está sendo escrita? É sabido que Martin atuou como produtor e consultor de GoT e que auxiliou os showrunners David Benioff e Dan Weiss e a equipe de roteiristas descrevendo o que imagina para o final da disputa pelo Trono de Ferro nos livros. Mas a falta de um material de apoio mais robusto, uma vez que o escritor estadunidense é conhecido pela narrativa cadenciada e detalhista, pode ter sido crucial para que o final da série tenha dividido opiniões.
Confesso que estou entre aqueles que se decepcionaram. Tudo pareceu corrido e confuso nas últimas duas temporadas. Esperava mais. Logo eu, que deixei de frequentar festas, de sair com os amigos ou até mesmo aproveitar o final do domingo para colocar o sono em dia… Sempre à espera de um novo episódio de GoT, sedento por todo aquele universo de histórias épicas e personagens cativantes. No fim, ficou a sensação de que caí em um golpe. E estou escolhendo cair nesse mesmo golpe, mais uma vez.
A HBO lançou, em 2022, a primeira temporada de House of the Dragon, baseada no livro Fogo & Sangue, de George R. R. Martin. Trata-se de um spin-off de Game of Thrones, cuja história se passa há cerca de dois séculos antes dos eventos das Crônicas de Gelo e Fogo. Com a segunda temporada em exibição atualmente, tudo segue com o mesmo primor técnico e narrativo visto nas primeiras temporadas de GoT.
O problema é que Fogo & Sangue, que descreve eventos da história da Casa Targaryen, também é uma obra incompleta. Planejada por Martin para ser concluída em dois livros, não há sinais de que o próximo esteja pronto antes que a nova série esgote o conteúdo do primeiro. E a produção já caiu no gosto das pessoas.
As expectativas estão decolando.
Será mais um “golpe”?
Será o fim das esperanças de ver uma adaptação dos épicos de Westeros com início, meio e final bem desenvolvidos?
Só o tempo poderá dizer…
É clichê, eu sei. Mas desta vez já estávamos avisados.
Cai quem quer.
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