CRÔNICA: O BOM FILHO À CASA TORNA

Gabriel Augusto Resende

Desde que saí de Conselheiro Lafaiete e me mudei para São João del-Rei há mais ou menos uns dois anos, para cursar Jornalismo na UFSJ, minha vida se voltou quase que inteiramente para essa realidade. Isso se mostrou, a um primeiro momento, uma experiência bem diferente e até intimidadora, já que eu estava sozinho na prática, longe do cuidado da minha mãe, dos conselhos do meu pai e do carinho e amizade dos meus irmãos. E eu digo na prática porque fui morar em uma república, do tipo tradicional, com outros nove universitários.

Em um primeiro momento, a ansiedade e a saudade de casa bateram forte, mas a vontade de viver a nova fase da minha vida o quanto antes abafava a voz da minha alma. Era tudo incrível para mim e até os trotes, muito presentes na experiência republicana e que deixam muitos se perguntando “Por que isso existe?” “Por que alguém tem que passar por isso?”, me pareciam justos. Eu não sabia dar a essas perguntas uma resposta convincente, tampouco me importava em fazer isso.

Pois bem, eu agora era um calouro de república, usando plaquinha e com o cabelo raspado. E as primeiras semanas foram passando, conforme eu me adaptava à casa e às pessoas que nela viviam. Procurei fazer amizade com todos, já que lá eu moraria por pelo menos quatro anos e consegui, aos poucos, conquistar a simpatia deles. Comigo, entraram outros dois calouros, com os quais fiz amizade rapidamente, pois estávamos na mesma situação, o que acabou nos aproximando. Apesar de nossas personalidades serem bem diferentes, formamos um trio muito unido e prático juntos.

Foi então que, passado um mês, já tendo os primeiros contatos com o curso que escolhi e conhecendo alguns dos meus professores e colegas, a primeira oportunidade de voltar para casa surgiu. Minha mãe já estava com saudades, me dizendo isso a cada dia que conversamos, por mensagens e chamadas de vídeo. E eu também estava. Me lembrei logo do episódio que ocorreu quando eu tinha acabado de chegar na república e ela e minha irmã me ajudavam a arrumar minhas coisas. Chorei junto com elas, e nos abraçamos. As lágrimas queriam sair novamente com a recordação, mas as contive. Meu pai veio me buscar no sábado de manhã e eu ficaria até segunda-feira em casa, quando teria que voltar às minhas atividades normais na faculdade. Na noite de sexta-feira, após a aula, arrumei minhas malas e fui dormir, ansioso para o que viria a acontecer no dia seguinte.

Ele chegou, pontualmente como sempre, estacionando em frente à república. Eu entrei no carro, guardei minhas coisas no porta-malas e então me sentei ao lado dele, no banco do carona. Conversamos muito, sobre toda a variedade de assuntos. Ele quis saber da república, da faculdade, de como eu estava lidando com toda essa nova vivência e eu, animado, contava a ele detalhadamente. Além disso, assuntos como clima, futebol (em especial nossa paixão em comum, o Galo) e notícias afins foram pautas da conversa. E, como eu não percebi que o tempo passou, pois estava super concentrado em contar pra ele minhas experiências, chegamos ao nosso destino.

Abri o portão, mochila nas costas e uma sacola na mão, com uma expectativa tão grande que nem parecia que ia entrar na minha própria casa. Fui recepcionado pelo fiel porteiro da casa, Tony, o cãozinho fiel e brincalhão que alegrava a todos. Ele também estava esperando ansiosamente por algo quando escutou, primeiro que todo mundo lá dentro da casa, o barulho que fiz. E veio pulando em cima de mim, como se não tivesse me visto por longos anos.

Entrei em casa e logo encontrei meu irmão, que veio ao meu encontro com seu jeito sempre tranquilo e irreverente de ser, sem claro, esconder a saudade. Brincamos um com o outro como de costume e fomos até minha irmã que me abraçou assim que me viu. Contei a ela sobre os acontecimentos do meu primeiro mês em São João. Conversei bastante com ela, que me contou que minha mãe sentiu muito a minha falta nesse tempo que passei fora, o que me fez rir e ao mesmo tempo quase querer chorar também. Nisso, ouvi o barulho do portão abrindo e se fechando novamente: ela estava chegando.

já fui logo ao seu encontro, como fazia sempre que a mesma vinha para almoçar. Abracei-a e senti as lágrimas escorrerem, assim que vi que ela deixou as suas caírem também, pingando no uniforme de trabalho. Entramos então em casa e o fim de semana passou voando, mas aproveitei cada segundo.


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