CRÔNICA: DA VÁRZEA AO ESTRELATO

Henrike Guttembergue Silva e Helbert Ignácio

A nossa infância, como a de qualquer garoto de nossa época, foi muito diferente do que as crianças vivenciam hoje. Está aí uma frase que entrega a idade. Não queremos negar isso: o tempo passou e esse é um texto nostálgico. A gente não podia ver uma brecha ou tempinho livre entre a escola e as tarefas cotidianas que já corríamos para a rua. E o futebol era parte essencial dos nossos dias. Bastava uma rua tranquila, um terreno baldio e dois pares de chinelos velhos ou gravetos improvisados e tudo virava um estádio. E bastava a bola rolar para começar o espetáculo.

Às vezes o cardápio futebolístico se sofisticava e a gente experimentava um “prato gourmet”. O Estádio Joaquim Portugal, sede do Athletic Club, time da nossa histórica São João del Rei. Era o nosso palco máximo. Um Wembley para os menos favorecidos. Um Mineirão para a vida no interior. Nós nunca jogamos, de fato, pelo clube. Nossas experiências provêm de confrontos acirrados contra o time da casa. Mas a gente admirava a estrutura, a organização de um clube que, ainda na várzea, já mostrava algum destaque. Era o maior estádio da região e jogar lá era o objetivo de cada boleiro mirim.

O tempo passou. As responsabilidades da vida adulta começaram a competir com aquela dedicação de outrora quase total à bola. Crescer implica em deixar algumas coisas para trás. E improvisar uma partida passou a não fazer mais sentido. Até mesmo a cena esportiva da cidade mudou. As competições amadoras locais perderam o apelo, bem como o sentimento de pertencimento aos nossos antigos clubes.

Desde o final dos anos 90, passando pela primeira década deste século, o futebol de São João del-Rei apresentava indícios de que iria sucumbir ao ostracismo. A transição do amadorismo, da várzea de chão batido para o profissionalismo, caminho “natural” trilhado pelo futebol brasileiro, parecia uma realidade distante para uma cidade com menos de 100 mil habitantes e sem grandes fontes de financiamento. Parecia.

O ano de 2018 marcou o retorno triunfal do Athletic Club ao futebol profissional, após uma primeira tentativa, frustrada, de se profissionalizar, durante os anos 70. Após se sagrar vice-campeão do Campeonato Mineiro da Segunda Divisão de 2018, que equivale à terceira divisão do futebol mineiro, o clube emendou uma sequência de acessos nos anos seguintes, firmando-se no Módulo I do Mineiro, com seguidas classificações para a prestigiada e milionária Copa do Brasil e com o recente acesso ao Campeonato Brasileiro Série C, logo na primeira participação na Série D, em 2023.

Nem nos nossos sonhos de criança imaginávamos ver um time de São João del-Rei chegar ao profissionalismo. Tampouco se firmar como uma equipe emergente, com sucesso esportivo chancelado com vitórias sobre times históricos do futebol brasileiro, como o Atlético-MG e o Vasco da Gama. Como poderíamos prever que competições como a Copa do Brasil e a Série C seriam disputadas no quintal de nossa casa? O destino foi benevolente com aquelas crianças que se alegravam ao pisar no gramado do Joaquim Portugal. Nós crescemos, amadurecemos, mudamos.

O Athletic também cresceu.

E tem sido incrível vivenciar essa jornada.


Imagem de destaque: Manu Aguilar/BH FOTO – reprodução – Instagram – Athletic Club

Todos os textos opinativos publicados no portal Notícias del-Rei são identificados como tal – não refletindo, necessariamente, a opinião editorial do coletivo.

Deixe um comentário