CRÔNICA: ATRAVÉS DA MINHA JANELA

Clara Damasio

Observar o mundo pela janela do meu quarto é quase como assistir a um eterno filme. De manhã cedo, aquela luz dourada do nascer do Sol começa as árvores e acordar os pássaros, e o ambiente do lado de fora é apenas tranquilo. As primeiras figuras que vejo são os mototaxistas, pois o ponto de partida é do outro lado da rua. Todos os dias eles apostam em uma partida de truco antes de aceitarem sua primeira corrida. Um deles, sempre canta o hino de seu time de futebol favorito, o Vasco, quando vence o jogo e mostra sua “dança da vitória”.

Logo depois, começam a surgir os pais, todos apressados, levando seus filhos para uma escola aqui do bairro. As crianças, sempre com as mochilas tão maiores do que elas, são um espetáculo à parte. Uma garotinha, que cada dia aparece com um penteado diferente, gasta seus cinco minutos diários, enquanto espera a avó conversando com uma das vizinhas, pulando amarelinha nas pedras da calçada, antes de ir para o colégio. Suas canções e cantigas ecoam pela rua toda vez que uma pedrinha é jogada no chão.

À medida que a manhã avança, a rua ganha vida. O dono de um dos mercados da esquina abre suas portas, organizando frutas e legumes frescos bem na vitrine. Ele sempre oferece uma maçã brilhante aos primeiros pedestres que passam pela sua calçada, um gesto de gentileza que me intriga, pois sua rixa com o dono do mercado ao lado é de conhecimento geral. Os clientes estão sempre sendo bajulados pelos concorrentes, o que é um tanto engraçado, pois na correria da rotina, raramente alguém entra no mercado pelas manhãs, e mesmo assim, todos os dias, religiosamente, eles fazem uma competição.

Lá pelo meio-dia, o sol está alto e o calor torna a rua um pouco mais silenciosa. É o horário em que a senhora do prédio ao lado aparece na sua varanda para regar as plantas. Ela cuida das flores com tanto carinho que parece conversar com elas. Às vezes, um gato malhado com uma coleira cor-de-rosa se enrola em suas pernas, se joga no chão, e mia desesperadamente, pedindo por carinho e atenção. Esse momento é um ritual para ela, quase como uma terapia. É fácil se sentir relaxada assistindo essa cena.

No início da tarde, os estudantes começam a caminhar de suas casas até o restaurante universitário. É sempre um “corre-corre” para buscar a marmita, tentar encontrar um lugar para sentar e evitar as filas. Um deles, um garoto que recentemente descobri ser aluno de intercâmbio, está sempre com um sorriso colado no rosto, e faz questão de cumprimentar todos na rua com um aceno alegre.

Quando o sol começa a se pôr, a rua se transforma mais uma vez. Os cobradores de ônibus se sentam na calçada, alguns exaustos pelo dia cansativo, e outros recém chegando para assumir o turno. Já reparei que existem alguns casais naquele grupo, e todos são compostos pelo motorista e a cobradora que são alocados em ônibus diferentes. Também vejo pessoas saindo para caminhar com seus cachorros, aproveitando o frescor do entardecer, geralmente mulheres, crianças ou até famílias inteiras. Há um grupo de adolescentes que se reúne em frente ao prédio, rindo e falando alto, cheios de energia e planos para a próxima “sessão cinema” ou festa de aniversário..

À noite, as luzes dos postes e das janelas criam um jogo de sombras interessante. O silêncio é interrompido pelo som distante de conversas, pelas risadas dos pedestres, e pelos carros que param no semáforo. A rua, nesse horário, tem um charme especial. Agora, com a mente fria, após um longo dia, observo diversos jovens voltando para casa, ou indo para a faculdade, enquanto os pais buscam as crianças na escola, e um grupo de senhoras debate sobre as fofocas da semana sentadas nos banquinhos da calçada.

Encerrando o ciclo, a lua sobe e substitui o sol no céu. A rua adormece lentamente, os últimos pedestres desaparecem, os expedientes dos mercados chegam ao fim, e eu fecho a cortina com um sorriso. Pela felicidade de acompanhar tantas histórias e reconhecer o privilégio de assistir esse mosaico de vidas entrelaçadas que passam bem diante dos meus olhos.

E assim, continuo a observar e a apreciar esse espetáculo intitulado como “Vida”, que acontece em um grande palco chamado mundo, através da minha janela.


Imagem de destaque: arquivo pessoal

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