POR QUE É TÃO DIFÍCIL PARA A MULHER MANTER A CONSTÂNCIA NA MUSCULAÇÃO?

Greycyelly Miranda

Inchaço, sensação de corpo pesado, falta de força, desânimo e sonolência. Essas são algumas das queixas mais comuns feitas por mulheres que praticam musculação em seus períodos pré-menstrual, também conhecido como TPM.

A variação dos hormônios durante o ciclo menstrual interfere no desempenho dos treinos, na constância e na percepção de desenvolvimento, fazendo com que as mulheres se sintam atrasadas, principalmente quando se comparam com homens.

Luiz Otávio Francisco, 33, bacharel em Educação Física, personal trainer e instrutor de salão de academia percebeu essas questões em suas alunas e começou a estudar sobre o assunto.

De acordo com o instrutor, “é nítida a diferença de desejo da mulher no seu primeiro mês na musculação, que influencia na sua força, mobilidade, flexibilidade e coordenação motora”. Essa vontade, no entanto, acaba perdendo carga, principalmente após um mês, que é quando geralmente ocorre um ciclo menstrual completo.

Para Giulia Zambald, 24, empresária, esses dias chegam próximos a sua menstruação e geram algumas consequências: “Eu tenho que diminuir as cargas, não consigo executar os exercícios muito bem e fico mais cansada”, comentou.

A jovem empresária iniciou na musculação recentemente, com o objetivo de hipertrofia (aumento da massa muscular), mas conseguiu outros ganhos, como a diminuição da cólica durante o período menstrual e a melhora da imunidade.

De acordo com Giulia, a chave principal desses benefícios tem sido a constância. “Eu uso muito a disciplina, em todas as áreas da minha vida. Então, se meus treinos são de segunda a sexta, por mais que eu não tenha vontade, eu venho, faço mais ou menos, mas  não deixo de vir. Só quando estou doente ou algo do tipo que eu falto”, afirma.

Jaqueline Portela, 32, atualmente dona de casa, também sente os efeitos da TPM: “é nesse período, talvez uma semana antes (do início da menstruação) que começa uma oscilação gigantesca de sentidos que a gente não consegue nem administrar direito”, e o impacto físico: “eu sinto muita fraqueza”, completa.

O caso de Jaqueline é peculiar, já que ela sentia os efeitos pré-menstruais mesmo não menstruando. Essa questão mudou quando ela iniciou o processo de emagrecimento com o auxílio da musculação, há cerca de quatro meses. “A atividade física em si trouxe minha menstruação de volta. Porque eu não menstruava desde 2016, mesmo tendo interrompido o uso de anticoncepcional nesses últimos 8 anos”, revela.

Apesar de sua menstruação ainda não ser regular, Jaqueline considera uma grande vitória ela já ter voltado, “Com a perda de peso, que foi até o que a minha endocrinologista já tinha falado, meus hormônios iriam se encaixar e, a partir da atividade física, minha menstruação voltou”.

Com os resultados, Jaqueline tem persistido nesse novo hobbie. “Exercício em si é qualidade de vida, e perder peso te estimula a continuar. No meu caso, a autoestima e, tudo o que a atividade física proporciona com a perda de peso, é o que me faz continuar, foi o que fez eu dar esse up de novo”, conclui.

Giulia e Jaqueline durante um de seus treinos

Conciliando a musculação com o ciclo

O ciclo menstrual é dividido em três fases, sendo elas fase folicular (pós-menstrual), fase ovulatória (liberação do óvulo) e fase lútea (pré-menstrual). Durante elas, acontece uma variação dos hormônios, em especial de estrogênio e progesterona, que gera as alterações físicas e mentais experimentadas pela maioria das mulheres todo mês.

No decorrer da fase lútea, como explica Luiz Otávio, os sintomas menos favoráveis para o treino de musculação aparecem, alterando diversos aspectos da vida feminina, como desempenho aeróbico, cognição, humor, sono, bem como o surgimento de dores.

Para lidar com a indisposição, o profissional da educação física sugere ir mesmo assim: “mantenha uma rotina regular de exercícios: mesmo que sejam treinos mais curtos ou leves, tente se exercitar pelo menos 3 vezes por semana. A regularidade é fundamental para manter os benefícios da atividade física e minimizar o impacto das alterações hormonais”.

Simultaneamente, conhecer o ciclo menstrual e se atentar às suas fases também é uma forma de lidar melhor com as variações, “Lembre-se que o ciclo menstrual é um processo natural e saudável do corpo feminino”, complementa.

Outra sugestão é: “busque apoio: converse com amigos, familiares ou um profissional de educação física para obter suporte e orientação. Compartilhar suas experiências e desafios pode ser muito útil para manter a motivação”, indica Luiz Otávio.

Quanto à conferência dos resultados, o personal destaca uma pequena ação que contribui para uma análise mais nítida e realista: “informar a fase do ciclo menstrual ao profissional que realiza a avaliação”.

Esse fator, muitas vezes desconsiderado durante o processo de aferição das medidas, ajuda a compreender o corpo e a não causar tantos desapontamentos, levando em consideração que na fase lútea pode haver inchaço corporal.

Saúde em primeiro lugar

Questionado sobre a busca por um corpo perfeito, Luiz Otávio ressalta: “não existe um corpo ideal. A ideia de um corpo ideal é subjetiva e culturalmente construída. O que é considerado ‘bonito’ ou ‘ideal’ muda constantemente, sendo influenciado por fatores como mídia, moda, indústria da beleza e padrões estéticos predominantes em cada época”.

E finaliza: “a saúde física e mental é muito mais importante do que a aparência”.


Imagem de destaque: reprodução / Freepik

Edição: Arthur Raposo Gomes

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