ARTIGO: A BOLHA ESTOUROU. MAS PARA QUEM?

Samanta Aquino

Especula-se que “a bolha dos mega-shows tenha estourado” no Brasil. Essa ideia surgiu a partir do comunicado de que as turnês da cantora LudmiLla e Ivete Sangalo foram canceladas. Em uma matéria publicada no site da CNN Brasil, o jornalista Phelipe Siani não dialoga com essa lógica. A reportagem enfatiza sim que há muitos pontos que precisam passar por revisões, como o fato dos preços dos ingressos, e que tem que existir uma compatibilidade do quê é prometido com o preço dos mesmos.

Ainda na mesma publicação, Phelipe explica que para uma bolha estourar, ela tem que produzir mais efeitos negativos do que se contabiliza que ocorreu: é necessário que shows estejam vazios e fracassos sejam consecutivos, o quê está bem longe da realidade!

Mas, e se tudo fosse um dominó?

Particularmente, gosto da visão trazida pelo jornalista André Barcinski no Guia Folha, da Folha de São Paulo, que aponta que não são as grandes produtoras as primeiras vítimas do que ainda está por vir.

Um setor muito frágil, que foi impactado e que ainda teme uma piora significativa dos seus resultados, são as casas de shows – pequenos espaços que oferecem eventos músicas em menor escala do que os grandes festivais.

Poucas pessoas voltam seus olhares para as casas de show, pois parecem espaços pouco atrativos, arcaicos e que limitam os instintos que afloram em grandes festivas e que podem produzir o famoso mosh ou roda-punk, como nos shows de rock, ou liberdade para levantar e se locomover.

Além de muitas pessoas terem que escolher ou o festival ou a casa de show para frequentar, seja por não ter como se deslocar a um ou outro, seja porque o custo se tornaria exorbitante. Um fator que é peça-chave para que pese no bolso dos espectadores das casas de shows, é o valor do dólar, que pressiona os promotores a repassarem seus custos.  Em 2018, US$1 valia R$3,30. Atualmente, o mesmo valor está equivalente a cerca de R$5,43.

O punk não nasceu em um festival, mas sim em espaços nova-iorquinos como o CBGB’s. Da mesma forma, a música eletrônica, seja ela a house ou o techno, surgiu a margem das grandes apresentações. Na verdade, várias vertentes musicais passaram pelos esconderijos de uma casa de shows antes de se tornarem uma locomotiva desenfreada dos mega-eventos.

Por isso, quando a bolha finalmente estourar pode tudo se transformar em purpurina ou estilhaços.


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