Bianca Martins e Richielle Oliveira
Como forma de resistência dos escravizados brasileiros, a capoeira surge em meados do século XVI. A prática era um tipo de luta disfarçada de dança, já que nesta época era proibido que os escravos praticassem qualquer tipo de ato de resistência. Ainda assim, a arte foi proibida por ser vista como violenta. Somente em 1930 há a liberação da capoeira, que passa a ser considerada um esporte nacional pelo então presidente da época, Getúlio Vargas. Desde 2008 esta é considerada patrimônio cultural brasileiro, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Há muitos questionamentos sobre onde se encaixa a capoeira, há quem defenda que é uma manifestação cultural e há quem diga que esta é um esporte. Para a professora de educação física, Andréa Guedes, a capoeira é uma manifestação cultural por ter surgido a partir de um momento histórico e cultural, “não tendo, a princípio, o objetivo de recreação, lazer, competição, melhoria da saúde e rendimento, como é comum na origem dos esportes”.
No entanto, a professora acredita que a prática também pode seguir pela vertente esportiva. “Penso que a capoeira tem duas vertentes. A cultural e a esportiva. Acredito que a capoeira esporte descaracteriza a capoeira enquanto cultura visto que padroniza movimentos, descontextualizada, cria regras”, afirma Guedes.
Dennis Leonardo, popularmente conhecido como chaminé, é contra-mestre de capoeira e acredita que esta pode ser tanto uma manifestação, quanto um esporte. “Ela trabalha com o corpo. E não deixa de ser uma manifestação cultural, diz o capoeirista.
“O pessoal fala que a capoeira é da África; a capoeira é brasileira, genuinamente brasileira! Porque na África não tinha essa ânsia de liberdade, os caras eram livres, ficaram cativos aqui, então é uma coisa que é nossa mesmo, por isso que tem esse forte recurso cultural!”

Para o contra-mestre, além de trabalhar a musicalidade, coordenação motora e o físico, a capoeira é um esporte participativo e inclusivo, uma vez que, há várias formas de participação, seja jogando, cantando ou batendo palma.
“De qualquer forma você participa, não tem como não participar da roda da capoeira”, afirma. Sandro Nascimento, conhecido como Coral, é professor do grupo Muzenza em São João del-Rei, e reforça o que disse Dennis Leonardo, sobre inclusão.
“Ela (a capoeira) também expressa inclusão social, ali colocamos rico praticando junto com pobre, mulher junto com homem, junto com menino, independente da classe social, orientação sexual, orientação religiosa. Dentro da roda somos todos iguais, somos todos capoeiristas!”

Ana Beatriz Romão pratica capoeira há pouco mais de um ano e afirma que dentro da roda não vê diferença entre as pessoas, que inclusive existem muitas meninas bem melhores que os meninos, a adolescente relata que na roda “ninguém desfaz de ninguém, está todo mundo no mesmo nível”.
A capoeirista diz preferir jogar com os mais velhos pois gosta mesmo é de “jogo sério”. Romão deixa ainda um recado para aqueles que desejam iniciar na capoeira.
“Façam, que é muito bom. E assim, a minha vida mudou, pode ser que na de alguém mude também.”

A capoeira atualmente está presente em diversos países e é praticada de várias formas, seja por quem acredita ser um esporte, seja para quem a vê como cultura, e até mesmo para quem a enxerga como forma de se defender, como é o caso do estudante Luiz Otávio, 14 anos. Para ele, o esporte deveria ser ensinado nas escolas, principalmente como forma de defesa pessoal.
Em São João del-Rei existem grupos de capoeiras espalhados por toda a cidade, dentre eles, o grupo Muzenza, que acontece no bairro Araçá, às terças e quintas-feiras a partir das 19:00 horas, as aulas são gratuitas e abertas ao público.
Vestimentas e musicalidade
Apesar de passar por algumas mudanças ao longo dos anos, e ter características específicas em alguns grupos, as vestimentas para jogar capoeira, seguem, majoritariamente, um padrão. Conhecida como abadás, os capoeiristas usam calças largas, bocas de sino, e blusas com malha fina, para que seja confortável realizar os movimentos. Os pés descalços e a cor branca vão além de conforto e estética, tais características foram adotadas por Mestre Bimba, importante nome na história da capoeira regional. Para ele, isto representa pureza e humildade, além de retomar as histórias dos escravizados, que usavam roupas da mesma cor.
As cordas na capoeira representam a evolução e o progresso de cada capoeirista, inicialmente, as cordas são trocadas a cada um ano, sendo realizado um batizado para mudar o nível da pessoa praticante. Com o lema “Vem das cinzas e às cinzas retornará” a primeira corda para iniciantes é na cor cinza, passando por diversas cores, até chegar ao título de mestre, na cor branca, que representa pureza. Para conferir os significados e titulações de cada cor, clique aqui.
A música é um importante componente das rodas de capoeira. Usada no princípio como forma de despistar os escravizadores, hoje elas contam histórias de capoeiristas, de resistência, e até mesmo de amor. Uma das canções mais comum nas rodas de capoeira, é a música “Paranauê” que celebra a resistência e cultura dos escravizados. Os principais instrumentos utilizados nas rodas de capoeira são: pandeiro, atabaque e berimbau.

Nunca verá as Olimpíadas?
Com os Jogos Olímpicos de Paris se aproximando e novos esportes sendo destaque do evento, é comum que o público se pergunte: “A capoeira nunca estará nas Olimpíadas?”, mas a inclusão de um novo esporte é mais complicado do que parece. Para que um esporte seja considerado uma modalidade olímpica e seja representada dentro dos jogos, é preciso que os esportistas estejam ligados a uma federação, que seja praticada em 75 países e em, no mínimo, 04 continentes.
Praticada em 152 países, o problema para classificação da capoeira como esporte olímpico não é a falta de público. A organização de seus praticantes em confederações é um dos pontos que vem barrando a entrada nas Olímpiadas.. A Federação Internacional de Capoeira (FICA) já é reconhecida pelo Comitê Olímpico, porém, tem a presença de apenas 28 países cadastrados. Destes, apenas 10 têm representantes para a organização de processos desportivos.
Mesmo que essa questão seja resolvida, a capoeira ainda encontra outro empecilho para a categorização como modalidade olímpica. De acordo com a educadora física e estudante do tema, Andréa Guedes, a capoeira é uma manifestação cultural, não podendo ser caracterizada como esporte.
Para a educadora física, a dificuldade para o reconhecimento do esporte como olímpico também se dá pela modalidade da capoeira que é disseminada pelo mundo. Andréa conta que, na maioria dos países, a capoeira praticada é a cultural, tornando mais complicado que seja considerada um esporte. A mulher ainda declara que “Acredito que a capoeira esporte descaracteriza a capoeira enquanto cultura visto que padroniza movimentos, descontextualizada, cria regras.”
Em 2016, ano que os Jogos Olímpicos foram realizados no Rio de Janeiro, houve uma tentativa de tornar a capoeira um esporte olímpico. Nesta ocasião, os praticantes desejam que a modalidade fosse considerada “esporte de demonstração”, sem que fosse considerada uma competição. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal e o pedido foi negado pelo ministro Celso de Melo.
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Richielle Oliveira
