CRÔNICA: VIDA ADULTA – A JORNADA DE TRANSFORMAÇÃO E DE SIGNIFICADO

Isabella Mol

Eu estava escorada na mesa de casa quando comecei a pensar sobre tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. Todos os dramas, medos, incertezas e discussões. Há meses eu estava entrando e saindo de maus entendidos, como em um ciclo vicioso, e uma onda de azar tinha inundado a minha rotina e mareado o meu coração sem que eu soubesse quando ou porque havia começado. 

Ali, naquele dia, eu me perguntava como tanta coisa podia ter dado errado ao mesmo tempo. Quer dizer, tantos problemas, tantas dificuldades, tantos desafios, tantas dores… Eu era uma só e estava farta de todos quererem que eu fosse mais. Será que ninguém estava vendo que eu também era humana? Será que eu tinha que implorar para mais santos e acender mais velas para que tudo finalmente se resolvesse? Será que para crescer precisamos nos machucar tanto?

Escorada na mesa da copa, eu só queria paz. Muitas partes de mim se encontravam desconectas naquela tarde em que eu me debrucei, perdi o ar e chorei sozinha em casa. 

Passar pelas decisões da vida adulta tinham calejado a minha pele e arrasado com a minha calmaria. “Tomou uma decisão ruim e impulsiva?” – Aguente as consequências para entender que não é assim que deve ser feito. “Se esqueceu de cumprir o seus projetos no prazo?” – Vai escutar do seu chefe sobre isso. “Permitiu-se confiar em quem não deveria?” – Leve um suco amargo de desonestidade e de vergonha para casa, assim que demonstrar as suas fraquezas. “Fez algo somente para agradar?” – Veja essas pessoas tentarem dominar você em todas as próximas vezes que baixar a guarda.

Como uma clássica jovem mulher do século vinte e um, devido a tantas identidades, me encontrava fragmentada, sem saber ao certo no que acreditava, quem eu era e de quais formas deveria reagir frente ao que acontecia comigo. Naquele dia, tudo parecia ter desabado. 

A vida estava difícil, lenta e eu… Eu não sabia onde pousar nela. Minha única certeza era de que eu não poderia confiar em muitas pessoas e de que o mundo poderia ser sombrio e solitário. Os meus sonhos, àquela altura, se encontravam pausados e jogados em um canto da sala. A minha esperança, escondida, chorando com medo embaixo da cama. 

Foi no instante mais desesperador, em que eu começava a hiperventilar de desespero, que eu recebi aquela ligação. 

Machucada, olhei para o visor do meu celular que vibrava na cama. A ligação era a mais inesperada possível: um tio materno, a quilômetros de distância e com quem eu conversava poucas vezes ao ano, me ligava. Logo ali, no meio da tempestade. 

Eu não queria atendê-lo, mas uma intensa preocupação tomou conta de mim e me fez pegar o celular: algo deveria estar muito errado na família – e estava, mas não com ele. 

“Oi, tio”, respondi com um sussurro, “está tudo bem?”.

Para a minha surpresa ele respondeu de tal forma: “tudo bem, querida. Estou ligando porque senti uma saudade intensa de você hoje e algo insistiu para que eu te ligasse”.

Fiquei em silêncio e o homem continuou: 

“Meu amor, tenho pensado muito sobre essa vida e sobre como às vezes nos esquecemos do que é primordial nela: o caminho que você trilhou e quantas pessoas te ajudaram neste processo. Muitas vezes, nos lembramos mais dos que tentaram impedir que alcançássemos nossos objetivos, mas aqueles que não embarcaram na sua condução e que não te ajudaram a construir o seu caminho, não merecem se tornar tempestade. Quem não dá amor, não merece amor”.

Engoli em seco, maltratada pelas dores que tinha ganhado pela vida.

“Eu sei. Sei que sofremos com a frieza de muitos nesse mundo distante, mas olhe para o lado e enxergue quantos abraços quentes você terá quando voltar para casa e, então, tudo fará mais sentido. Perceba quantas pessoas batalharam para te colocar onde você está. 

Como ele pediu, lembrei de todos aqueles que estavam atrás de mim, trabalhando duro, para que eu estivesse onde estou hoje.

“Nessa vida, só nós mesmos podemos decidir se somos ou não dignos de algo, inclusive da felicidade. Isso não significa que o percurso é fácil. Ele vem com acertos, alegrias, mas também com problemas e com erros. Mas veja, filha, o erro pode ser bom, desde que sempre seja curto. Aprenda com ele, veja como se colocou na situação, mas não se culpe. Siga em frente, não sinta pena de si mesma. Os problemas: enfrente-o, mas não dê a eles o poder de dominar a sua vida. Nós, meu amor, só damos o que temos. Alguns dão amor, outros dor, mas os mais autoritários e rancorosos são os verdadeiros doentes que precisam ser ajudados”.

Neste instante, sequei as lágrimas que insistiam em cair dos meus olhos enquanto ele falava.

“Volte a sonhar e a acreditar, porque, filha, isso é a vida: aproveitar os amores, as bondades, mas também afastar os maus, e descobrir que a felicidade mora na sua casa – a casa dentro de você, onde mais ninguém pode entrar. Cure o que precisa ser curado, mas nunca se esqueça de que você está aqui para ser feliz. Batalhe, rale, perca horas para chegar onde quer chegar, mas nunca deixe que ninguém impeça o seu propósito de ser feliz”.

De repente, algo mudou no universo que me cercava, algo que eu ainda não podia enxergar, mas que vinha me trazendo muitas das respostas que eu buscava. Algo que os mais lúdicos chamam de magia, os mais religiosos, de ação divina e os mais céticos, de coincidência.

“Eu te prometo”, ele completou, “não para, mas fica mais fácil. Você aprende”.

Eu o agradeci e desliguei o celular. O que tinha acabado de acontecer?

Em mais um dos mistérios da vida, de repente, estar onde eu estava foi um pouco mais fácil. Encarar o meu rosto inchado no espelho foi mais leve e me tranquilizar começou a ser possível. Sentada naquela mesa, eu voltei a acreditar – nos mistérios da vida, nas felicidades inesperadas e nas doces surpresas.

Naquele dia, tomei um banho longo e silencioso e, quando saí de lá, comecei a me conformar com a vida. Me conformar, porque eu nunca seria capaz de controlar tão grande movimento, e me entreguei de braços abertos para o que ela viria a me dar – e talvez, esse seja o segredo de tudo isso aqui. Ser fluido, deixar que aconteça e ter clareza para enfrentar os dias difíceis; estar pronto para a jornada, sabendo que ela será complexa, incerta e irônica, e ser flexível sobre ela.

Hoje, o pior passou e às vezes eu ainda me sento naquela mesa sozinha, sabendo que outras dificuldades virão. Vez ou outra, relembro o que meu tio me disse: quem não faz nada, não merece nada. Quem não ajuda a criar, não tem o direito de destruir. Não será uma jornada fácil, mas tenho percebido que precisa ser, nos pequenos detalhes, bonita – e é só assim que encontramos felicidade. 

Hoje, entendo o porquê crescemos: é só quando adultos e responsáveis por nós mesmos que conseguimos viver a totalidade da vida; que conseguimos amar, pensar por nós mesmos, nos expressar e sentir livremente o que significa ser humano. 

Hoje, vivo com menos medo da estranheza alheia sobre mim, com mais garra e com mais certeza de que o inesperado sempre surpreende. Hoje, eu torço por novas coisas e me equilibro para tentar passar por elas, buscando os meus objetivos e me lembrando constantemente de que nós só temos essa vida para viver nossos sonhos. Eles devem ser nossas prioridades e, o resto, efeitos colaterais a serem sanados. 


Imagem de destaque: reprodução – banco de imagens – Freepik

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