Júpiter Porã
A intolerância religiosa é uma sombra que ainda paira sobre a sociedade contemporânea e manifesta-se de formas insidiosas e muitas vezes violentas. Um dos alvos comuns desta intolerância são as religiões de matrizes africanas, como o Candomblé e a Umbanda, as quais ainda enfrentam discriminação e hostilidade, apesar de suas raízes profundas e do grande significado espiritual para muitas pessoas.
Os terreiros de Umbanda e Candomblé, por serem doutrinas de pessoas afro-diaspóricas, são os principais alvos de intolerância religiosa, sendo o resultado de um legado histórico de colonização e racismo estrutural, e uma continuação de padrões históricos de opressão. Isto pode ser percebido através de diversas notícias veiculadas nos meios de comunicação sobre violações de casas de matrizes africanas, trabalhos e até agressões de frequentadores e filhos de santo.
No Brasil, a intolerância religiosa é considerada crime, podendo acarretar uma pena de um a três anos de prisão, mais pagamento de multa. No entanto, esse fato não intimida aqueles que cometem racismo religioso, fazendo com que as denúncias e ataques sejam cada vez mais recorrentes.
Segundo o levantamento da startup JusRacial, a intolerância religiosa representa um terço dos processos de racismo em tramitação nos tribunais brasileiros. De acordo com o Supremo Tribunal Federal (STF), esse tema corresponde a 43% dos 1,9 mil processos em tramitação na corte. Já nos tribunais estaduais existem 76,6 mil processos relacionados ao racismo, sendo 29,5 mil envolvendo religião.
É importante reconhecer que a diversidade religiosa é o resultado da diversidade humana e deve ser valorizada como tal. Admitir ou desconsiderar as crenças de outros indivíduos, não só fere a dignidade daqueles que são alvo dessa intolerância, mas também mina os padrões morais e éticos da sociedade como um todo, uma vez que os direitos de liberdade religiosa estão documentados em diversas constituições internacionais, inclusive na brasileira, sendo o Brasil um Estado laico. Este direito não deve ser apenas uma formalidade, mas antes uma prática habitual que valoriza e salvaguarda todas as expressões de fé, sem exceção.
Como resultado, é responsabilidade de cada cidadão e membro da sociedade plural aprender sobre as diferentes crenças que existem ao seu redor e criar um ambiente de respeito mútuo. Isto envolve tanto combater ativamente o preconceito quando este ocorre, como promover a educação e o diálogo religioso como meios de construir pontes de compreensão.
Em última análise, a intolerância religiosa dirigida à fé religiosa de base africana é sintomática do nosso fracasso coletivo em reconhecer e celebrar a diversidade espiritual e cultural que contribui para a nossa sociedade.
Só cultivando o respeito mútuo, a solidariedade e a propagação de políticas públicas voltadas para a laicidade do Estado podemos criar um futuro em que todas as crenças religiosas sejam reconhecidas, protegidas e respeitadas.
Imagem de destaque: divulgação – Prefeitura de Maricá / reprodução – Agência Brasil
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