CRÔNICA: GABIROBA

Cecília Rodrigues

Minha mãe costumava me dizer que gabiroba era a palavra usada pra descrever gente como a gente, nascida e crescida em Ritapólis. “Também pode ser fruta, mas isso é menos importante”. Gabiroba sempre é assim, se acha o centro do universo.

Talvez seja rotineiro pra quem é de cidade pequena, se considerar a coisa mais importante do mundo. Todo mundo é acostumado a ser o tópico do momento. Não acontece muita coisa na região, então o povo cria conteúdo até onde não tem: tenho uma prima que foi considerada grávida só por ir no ginecologista, e sempre falam que minha tia se separou do marido só porque ela tirou a aliança pra arrumar o jardim da casa.

Saí de Ritapólis com dezoito anos, e fui rumo a BH. Fui embora da tranquilidade de quatro mil habitantes, para dar de cara com a muvuca da cidade de dois milhões. Foi um baita baque, já que foi ali que conheci cinema, shopping, fast-food… Eu casei pouco tempo depois, fiz uma boa grana com isso. Muitos anos se passaram, eu enviuvei e continuei com a grana.

De vez em quanto, ainda visitava minha cidadezinha. Via a família, os velhos amigos, aproveitava pra andar por aí sem medo de ser assaltada, visitar uma igrejinha e comer tudo que se há na roça. Todo mundo se conhece em Ritápolis, então eu conseguia cumprimentar todo mundo quando ia no supermercado comprar o pão pro café da manhã. Com setenta anos, você para de escutar “sabia que eu te carreguei no colo?” e começa a escutar “e como tão seus netos?” ou “quando é que cê volta?”. Eu quase nunca sabia a resposta dessas perguntas, então só ria pra ser simpática.

Minha vida melhorou muito, envelheci bem e com saúde – graças a Deus. Fui pela primeira vez pro exterior: EUA. Eu nunca soube falar inglês, é verdade. Mas, se eu tinha dinheiro pra ir, por que eu não iria? Não é como se eu fosse ter paciência para aprender um idiota todo só pra uma viagem de uma semana!

Nova Iorque é ainda maior do que BH. É até meio assustador, tanta luz e movimento no mesmo lugar. Era gente indo pra lá, gente voltando pra cá, uma pressa danada! Eu não tinha coragem de ficar andando com o celular na mão, e nem achei muita igrejinha pra visitar. Ninguém te cumprimentava, também. É até meio triste, ficar sozinha na Times Square.

Mas, pelo menos, os dias são sempre ocupados! Toda hora tem alguma coisa acontecendo, mas ninguém entende os brasileiros muito bem. Uma vez, fui perguntar pro guardinha do prédio onde ficava a saída, mas ele não entendia português – e perguntou da onde eu era. Ora, eu não sabia falar “Brasil” em inglês, então me expressei pelo que nosso país é mais conhecido no mundo lá fora: “Samba! Futebol!”.

Ele não me entendeu muito bem, então peguei raiva e fui embora. Umas três voltas por aí, achei a saída sozinha. Em Ritápolis sempre me entenderam. Pelo menos, entendiam o que eles queriam. Meu povo fala alto, ri de tudo e fofoca até demais.

Sinto saudades do meu interior, é verdade. Bate um vazio quando penso no pão de queijo caseiro, no solzinho que bate na pracinha, nas frutas que eu colhia das árvores dos outros quando eu era jovem.

Sinto falta de ser reconhecida, mesmo sem morar por lá. Também deve ser coisa de cidade pequena, todo mundo conhece seus pais e sabem da sua vida. Gabiroba tem trinta olhos e trinta ouvidos pra saber de tudo, e mais sessenta bocas pra conseguir falar de todo mundo ao mesmo tempo.

Um dia, eu volto pra lá.

No meu último dia em Nova Iorque, resolvi dar uma voltinha a pé. Não tinha sol por lá na cidade: o céu era cinza e os prédios cobriam tudo. Hoje, eu ia comprar lembrancinhas pra minha família.

Do nada, eu ouvi uma voz bem longe. Não era conhecida, nem nada, mas o que ela gritou foi bem familiar pra mim: “Ei, Gabiroba!”.

Fiquei assustada. Quais as chances? Não tinha como ser! Devia ser da fruta, que estavam falando! Mas quem é que gritaria sobre uma fruta dessas no meio da Times Square?

Eu não conhecia quem estava gritando, é claro que não. Mas quando vi que estavam acenando e correndo até mim, percebi que ele claramente me conhecia. Não é possível! Oito milhões de habitantes e um colega de cidade me reconhece?

Devia ser amigo do meu pai, ou da minha mãe. Meu não era. Mas um Gabiroba, na minha frente, na Times Square? Foi esse dia que eu aprendi o que mais minha mãe não havia me ensinado:

  1. Gabiroba é gente que nasce em Ritapólis;
  2. Gabiroba (gente) é mais importante do que gabiroba (fruta);
  3. Gabiroba sempre reconhece quem é da sua terra.


Imagem de destaque: reprodução – banco de imagens – Freepik

Todos os textos opinativos publicados no portal Notícias del-Rei são identificados como tal – não refletindo, necessariamente, a opinião editorial do coletivo.

Deixe um comentário