Eduardo Viana, Isabella Mol,
Letícia Favero, Livia Werneck e Maria Luiza Valuar
São João del-Rei, cidade historicamente marcada pela tradição, vê emergir um novo protagonista nos campos de futebol: o Rajadão Futebol Clube. Por trás das chuteiras, este time carrega consigo um propósito que vai além das vitórias nos gramados: a representatividade LGBTQIAPN+.
Fundado por um grupo LGBT+ em 2023, o Rajadão F.C. não busca apenas sucesso esportivo, mas também serve como um espaço de acolhimento e de celebração da diversidade sexual e de gênero. Com uma filosofia inclusiva e progressista, o clube se tornou um símbolo de resistência e afirmação para a comunidade LGBTQIAPN+ na região.
“Hoje eu sei quem eu realmente sou”, conta o zagueiro Luís sobre a própria experiência com o Rajadão. Para o jogador, este foi o espaço onde finalmente se sentiu acolhido, sendo “um dos únicos lugares em que qualquer coisa que eu faço não vou ser julgado”. Assim como ele, os outros membros contam com orgulho suas trajetórias.
Pablo, também zagueiro e representante da equipe, diz que a mensagem que eles querem transmitir é a de que toda pessoa LGBTQIAPN+ pode praticar esportes, especialmente o futebol, colocando-o como uma atividade inclusiva, ainda que muitas vezes não pareça ser.
Na história do futebol, poucos foram os casos dos jogadores que, ainda em atuação, se declararam parte da comunidade LGBTQIAPN+: os mesmos tiveram que lidar com críticas severas e, muitas vezes, com ameaças por causa disso, devido ao padrão heteronormativo que construiu a história desse esporte ao redor do mundo.
Os integrantes do Rajadão Futebol Clube sentem esse preconceito na pele. “Estamos quebrando estereótipos, furando bolhas, mas ainda falta muito”, comenta Pablo.
Ele aponta que “a gente ainda sofre com a invisibilidade (…). As pessoas ainda têm muitas feridas, por isso o time também é um grupo de apoio, onde podem ser vulneráveis e se apoiar”.
Assim, o time segue jogando, carregando o espírito esportivo e o amor pelo esporte. Eles já participaram de um primeiro campeonato, em Belo Horizonte, e estão em busca de mais oportunidades para que possam mostrar ao mundo o próprio sonho: sonho que começou como uma brincadeira, uma pelada entre amigos, e hoje tem até bandeira, logo e nome oficial.
Nome inspirado em música
O título “Rajadão Futebol Clube” é inspirado em uma música da Pabllo Vittar, enquanto o pinguim, mascote do time, foi escolhido pensando em sua característica dentro do reino animal: ele é uma das únicas espécies em que há vários casos de homossexualidade entre os pares, segundo informações dadas pelos integrantes da equipe à reportagem.
Os integrantes “se viram como podem”, contam em entrevista. O time ainda não tem apoio financeiro e, na maioria dos treinos, é Pablo quem os coordena: o jovem segue vídeos que encontra no YouTube com orientações sobre treinos e passa para os outros.
Além disso, os jogadores admitem que algumas oportunidades ainda não podem ser aceitas, devido a falta de apoio financeiro para o time, como campeonatos em outros estados, para os quais já foram chamados.
Isso acontece, segundo eles, muitas vezes, porque ainda há um preconceito das marcas em representar um grupo LGBTQIAPN+: algo que precisa ser mudado. A Secretaria de Esportes de São João del-Rei foi procurada sobre o assunto, mas não deu resposta até o fechamento desta matéria, no dia 04 de julho, às 19h.
“Ousadia, acolhimento e resistência”
Por tudo isso, o time se vincula às palavras: ousadia, acolhimento e resistência.
Ousadia, segundo Pablo, porque eles saem do convencional e desafiam os padrões vigentes, que muitas vezes tentam impor que pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ não são bons praticantes de esportes.
Acolhimento, já que, de acordo com o zagueiro Heber, o time traz senso de apoio e de normalidade entre os integrantes, ao praticarem o esporte.
Por fim, resistência, porque eles lutam e resistem em frente aos preconceitos sociais.
A psicologia por trás do esporte inclusivo
Para entender melhor o impacto social e psicológico dessa iniciativa, o psicólogo Paulo Augusto compartilha suas reflexões sobre o tema.
“O compromisso da psicologia na sociedade é, principalmente, garantir a liberdade de expressão de todos os indivíduos”, destaca.
Essa abordagem multidisciplinar se reflete na estrutura do Rajadão F.C., que não se limita apenas aos treinos táticos e físicos, mas também oferece suporte emocional aos seus jogadores.
Paulo Augusto ressalta a importância desse suporte: “os jogadores encontram no ambiente do clube um espaço seguro onde podem compartilhar suas angústias e perceber pontos paralelos com outros atletas. Nós naturalmente nos sentimos mais fortes quando sabemos que do nosso lado existem pessoas prontas para lutar pelas mesmas causas, e quando não é possível a presença física destes apoiadores, a confiança interna construída nesta interação pode ser levada para qualquer situação”.
Além de ser um ambiente de apoio, o Rajadão F.C. também desafia estereótipos e preconceitos, mostrando que a excelência esportiva não está vinculada à orientação sexual ou identidade de gênero. Através do talento e da paixão pelo futebol, esses atletas quebram barreiras e inspiram outros a serem autênticos e orgulhosos de quem são.
Conversando com alguns dos jogadores, fica claro o impacto positivo que o clube tem em suas vidas. “Antes do Rajadão, eu me sentia invisível no mundo do futebol, agora, me sinto acolhido pelo grupo e fico mais confiante para praticar o esporte.” compartilha Pablo.

Serviço
O Rajadão Futebol Clube está procurando novos integrantes e parceiros. Os treinos acontecem todos os sábados, às 15h30, na quadra do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais – Campus São João del-Rei, e são abertos ao público.
Para entrar em contato, mande mensagem pelo número de WhatsApp (32) 9 9938-6547 ou para o perfil no Instagram @rajadaofutebol.
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Eduardo Viana
