ARTIGO: CPI DA MANIPULAÇÃO – O FUTEBOL BRASILEIRO CADA VEZ MAIS DISTANTE DE SUAS ORIGENS

Júlia Resende

Reclamar de uma falta não marcada, de um gol anulado, de um cartão amarelo sem motivo ou até mesmo de um impedimento que passou batido, é praxe entre os torcedores dos times de futebol brasileiro. “A culpa é do juiz, poxa”. Na grande maioria desses casos, esse tipo de fala é considerada “desculpa de perdedor”, em que o senso de justiça quer falar mais alto e, de fato, nessa grande maioria de casos, é desculpa mesmo. Mas e quando a credibilidade da arbitragem, assim como do sistema do futebol brasileiro como um todo, é posta em jogo durante investigações dos órgãos públicos federais? Até onde o dinheiro consegue modificar uma prática que, inicialmente, tinha o objetivo principal de propiciar lazer e cultura? 

Instaurada em 10 de abril de 2024, a CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas tem como finalidade apurar fatos relacionados às denúncias e suspeitas de manipulação de resultados no futebol brasileiro, envolvendo jogadores, dirigentes e empresas de apostas. Dentre as testemunhas convidadas para prestar depoimento, John Textor,  sócio majoritário da Sociedade Anônima de Futebol (SAF) do Botafogo, conversou por horas com os membros da Comissão, no dia 22 de abril.  Ele já havia declarado haver provas de que os erros de aplicação das regras do futebol não são frutos de falha de interpretação, mas sim erros intencionais para alterar o andamento do jogo envolvendo partidas de futebol das séries A e B do Campeonato Brasileiro. Em seu depoimento, apresentou documentos numa sessão secreta da CPI, que levaram os senadores a convocar mais pessoas para serem ouvidas. 

No relatório apresentado por Textor, está a gravação de um áudio, supostamente do árbitro Glauber do Amaral Cunha, em que é citado o pagamento de propina para alteração do curso de um jogo. Com o vazamento do áudio, foram veiculadas informações de que se tratava de manipulação na Série C do Campeonato Brasileiro. No entanto, foi comprovado se tratar de disputa da Série C do Campeonato Carioca. Mesmo assim, durante a reunião da CPI do dia 24 de abril, os senadores discutiram sobre a forma como as denúncias e análises devem ser conduzidas para que competições e profissionais que não possuem relação com as polêmicas, não sejam prejudicados.  

Ainda sobre John Textor, Jorge Kajuru, senador presidente da Comissão, afirmou, em 25 de abril durante entrevista a uma rádio de Goiânia, que se ele não provar nada das hipóteses que levantou durante seu depoimento e em suas coletivas de imprensa, a punição provável seria o banimento do Brasil, assim como a saída do Botafogo. A ação seria justificável pela “bagunça” que o americano provocou. 

Em uma de suas falas sobre o assunto, o sócio da SAF do Botafogo afirmou que um dos jogos manipulados seria uma vitória do Palmeiras por 5 a 0 contra o São Paulo pela 29ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2023, ano em que o Palmeiras foi campeão. Por essa e outras suposições envolvendo jogos que o Palmeiras ganhou, a Presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras, Leila Pereira, em entrevista ao Abre Aspas, do ge.globo, contou que entraram com processo na esfera cível e solicitaram a instauração de um inquérito policial para apurar as denúncias. Para ela, que demonstra sua insatisfação com o fato de Textor não apresentar as provas que diz ter, “as autoridades brasileiras precisam adotar uma postura muito firme, pois ele está dizendo que o Brasil não é um país sério e coloca em xeque todo um campeonato”. A Presidente do Palmeiras foi convidada para ser testemunha na CPI, em depoimento marcado para 20 de maio.  

Diante de tudo isso, como a investigação ainda está em curso e o prazo final da CPI é somente em 21 de outubro, não é possível afirmar o certo e o errado em cada caso. Porém, a certeza é que os torcedores e toda a nação brasileira ligada ao futebol, já ficaram com a pulga atrás da orelha a partir dessas suposições que podem desmascarar um sistema inteiro de manipulação em troca de propina. Alguns torcedores já decidiram sua posição em tudo isso: acreditam nas falas de Textor ou o descredibiliza por completo. 

Mas a questão principal é: como saber se o resultado do jogo do meu time de coração foi verdadeiro ou se foi manipulado para beneficiar um jogador ou até mesmo um time inteiro? Como confiar que erros de marcação foram erros de interpretação e não manipulação? Em uma sociedade que o capital é mais importante, para muitos a pulga atrás da orelha fica até mesmo após o término das investigações, seja ele com desfecho positivo ou negativo.

Aos poucos, a paixão pelos times também são descredibilizadas e se perdem no meio da bagunça. 


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