CRÔNICA: MEMÓRIAS DA HISTÓRIA

Eduardo Expedito Viana

Na manhã de 16 de dezembro de 2012, o Estádio Internacional de Yokohama, no Japão, se tornou palco de um dos momentos mais marcantes da história do futebol brasileiro. Diante de um Chelsea imbatível, o Corinthians, em uma atuação heroica e contagiante, conquistou o bicampeonato mundial, erguendo pela segunda vez o troféu da FIFA. Esse evento ficou marcado para sempre no coração dos corinthianos.

Entre eles, um grupo excêntrico de pessoas. 

Com uma distância de 18 mil quilômetros da partida, em São José dos Campos, interior do estado de São Paulo, 6 pessoas em uma sala de estar olhavam atentas para a televisão. O jogo, que era transmitido ao vivo, apresentava uma disputa digna de acidentes cardíacos. Além disso, contava um delay maligno de poucos segundos, onde alguns vizinhos, mais afortunados e com dispositivos potentes, murmuravam suas lamentações e risadas pelas paredes antes que o visor pudesse mostrar. O spoiler contia e amedrontava os telespectadores.

Olhares vorazes. Unhas cerradas. Calor intenso. Todos os sentimentos em uma única sala de estar. Todos ansiosos e vibrantes com uma única coisa: a bola de futebol. Ela tinha o poder de destruir suas vidas ou tornar a felicidade palpável. Cássio; Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf e Paulinho; Jorge Henrique, Danilo e Emerson (Wallace); e Guerrero (Martínez) controlavam milhares de pessoas com seus pés. 

Nesse momento, o esporte era o centro do mundo – pelo menos, para aquele grupo específico de pessoas.

O primeiro tempo não foi palco de grandes feitos, apesar de ter gerado enorme apreensão no time brasileiro. Segundo estatísticas liberadas após o jogo, foram os ingleses quem conseguiram obter vantagens durante a partida (especialmente a primeiro momento), por exemplo, foram quatorze contra nove chutes aos gols do time inglês. Além da maior posse de bola. 

Porém, o segundo tempo foi marcado pela esperança. Em uma jogada, aos 69 minutos de partida, o Corinthians dominava a bola e pressionava o Chelsea. Após trocas de passes, a bola ficou com Paulinho, que tentou abrir espaço dentro da grande área, mas o time inglês estava muito fechado. O camisa 8, então, deixou a bola com Danilo, que tentou a finalização de direita. O chute foi bloqueado. No entanto, a bola subiu e caiu para Guerrero. 

Que fez o gol. 

Antes que aquelas pessoas, localizadas do outro lado do mundo em relação aos jogadores, pudessem comemorar, um barulho ensurdecedor surgiu do quintal. Em poucos segundos, o grito de “golaço” apareceu na televisão. Nesse instante, o grupo se dividiu em duas partes: 1) os eufóricos com o gol; 2) os preocupados com o estrondo. 

O barulho? Uma vizinha, corinthiana, que não soube controlar os sentimentos do gol e pulou (ou caiu) o muro de sua casa para comemorar. Os machucados não fizeram efeito na sua alegria e comoção. Na realidade, fortaleceu sua vontade de torcer para o restante do jogo – que se tornou a 7º integrante daquele grupo excêntrico. 

Os próximos minutos foram ainda mais angustiantes. Afinal, a vitória estava tão próxima e vívida quanto a esperança dos torcedores. Entre choros e gritos, finaliza a partida: oficialmente o Corinthians era bicampeão, por 1X0 contra o Chelsea. 

A esperança deu espaço a comemoração. 

Esta, por sua vez, chegou acompanhada de “buzinaços”, gritos, fogos de artifícios e torcedores – estejam eles machucados ou não – orgulhosos do seu time. O restante do dia, e não seria exagero dizer “mês”, foi repleto de comentários astutos sobre o desempenho do time e a importância da vitória. 


Naquele apito final, os corinthianos, até mesmo os mais tímidos e desleixados, deixaram de ser torcedores e passaram a ser parte de algo maior: memórias da história.


Todos os textos opinativos publicados no portal Notícias del-Rei são identificados como tal – não refletindo, necessariamente, a opinião editorial do coletivo.

Deixe um comentário