CRÔNICA: A AMPULHETA

Foto: Freepik

Luisa de Lucena Coelho

A vida adulta chega e as preocupações são muitas: será que vou conseguir trabalhar com o que eu quero? Será que é isso mesmo que eu quero? Como vai ser daqui pra frente? Será que vou conseguir a independência financeira logo? 

Apesar disso, essas questões são coisas para as quais, de certa forma, nos preparamos ao longo de toda a vida. Desde criança nos perguntam que profissão queremos seguir, e desde a adolescência nossos pais tentam nos ensinar a ser independentes e trabalhar. Esses problemas, eventualmente, surgem, incomodam e passam. O que mais dói é a ausência.

E, veja bem, essa ausência da qual me refiro não significa morte ou abandono, mas uma diminuição da presença de pessoas com as quais crescemos.

Nossos irmãos, com quem compartilhamos o quarto, o cereal – e os traumas – também crescem e, num piscar de olhos, cada um foi pro seu canto. 

É aterrorizante pensar que é durante a infância que passamos a maior parte do tempo total que vamos viver com os nossos irmãos e, muitas vezes, com nossos pais.

Depois que saímos de casa, com a correria do dia a dia, é preciso uma ocasião especial, um feriado. E assim vamos perdendo os detalhes da vida daqueles de quem sabíamos cada passo. 

Quero dizer: o meu irmão, que é a única pessoa que passou comigo o processo de separação dos nossos pais, nunca vai saber que hoje eu vi um cara parecido com o meu ex na academia porque, da próxima vez que eu falar com ele, vou precisar resumir todos os últimos acontecimentos da minha vida em alguns minutos de ligação, o que significa falar sobre como vai a faculdade, a família e ouvir sobre os seus novos projetos. 

Se a vida fosse uma ampulheta e a areia representasse o tempo que ainda temos com os nossos, é bem capaz que, nesse momento – o da chegada da vida adulta – o compartimento de baixo já esteja mais preenchido do que o de cima, já que ela escoou num ritmo muito mais rápido durante a nossa infância.

Não tem nada que a gente possa fazer sobre isso.


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