
Neto Lacerda
Desde sua criação, o futebol é negócio. Verdade que, hoje, os valores que giram em torno deste esporte são muito maiores, milhares de vezes mais. Porém, ainda assim é um produto como antes. O torcedor já está acostumado com números, do mais velho ao mais novo.
Então, o que mudou nos tempos atuais?
A forma como esses números são trabalhados. Hoje, todo resultado é relacionado a parte econômica do clube, toda derrota é culpa da diretoria ou, em caso de SAF, do proprietário do clube.
Na era em que vivemos, até cobertura de eleição para presidente de clube é pauta da imprensa. Claro, isso é fruto de muitas coisas. Desde a influência dos cartolas brasileiros, até a briga por visualizações e furos de reportagem dos setoristas de clubes.
O futebol, por si só, já causa um enorme efeito em quem o vive.
Quem “respira o clube do coração”, muitas vezes dorme e come mal, tem dias e semanas ruins, fica de cara fechada no trabalho e sem ânimo pra nada. Isso tudo, quase sempre, por causa de uma eliminação ou um resultado ruim do seu time.
Se só pela sua essência, o futebol tem o poder de causar todo esse mal, imagine quando combinado com uma chuva de informações, palpites, previsões e reclamações nas redes sociais.
O torcedor não consegue respirar. Aquela pessoa que precisaria de dois dias de folga do clube, para esquecer a derrota e se animar para a próxima partida, acaba ficando mais nervosa e ansiosa.
A saúde mental, palavra que ficou “famosa” nos últimos anos, é talvez a coisa mais invejada que um ser humano pode possuir.
Cada vez mais difícil de ter, ela vem sendo vencida pelo stress de acompanhar o cotidiano do mundo da bola. E convenhamos, não há nada mais gostoso que aproveitar o seu time. Sentar no sofá ansioso (no bom sentido da palavra) e sentir aquele frio na barriga na véspera de um jogo importante. Comemorar uma vitória ou até mesmo um simples gol ao lado de quem você ama, de um pai ou um irmão. Esses momentos são mágicos e são proporcionados pelo mesmo esporte que causa todos os problemas citados.
Realmente, com tantos gatilhos, fica difícil controlar o que queremos ver.
Mas, podemos ao menos fazer escolhas pontuais. Desintoxicar o corpo e a mente. Sair de grupos de torcedores rivais e parar de seguir perfis sensacionalistas já são boas maneiras de respirar um pouco melhor.
A minha dica, de um torcedor apaixonado, é aproveitá-lo, da forma que o convém. Focar no campo, no jogo. Algumas vezes a bola não entra por causa de um erro técnico ou um azar. Nem sempre tudo é tão maior do que um simples gol perdido.
O ciclo: acompanha uma derrota; abre o Twitter; tem uma enchente de comentários negativos sobre a partida; se estressa e perde o dia, não vai levar ninguém a lugar nenhum.
O futebol é emoção, precisa ser vivido por completo, mas não precisamos perder uma parte de nós, uma parte preciosa, para isso.
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