Rayane Késsia,
Flávia Lifonsino e Lisley Cruz
A cultura das tranças para pessoas pretas é muito mais do que só sobre o seu valor estético: o cabelo para o grupo é sinônimo de resistência, isso, devido ao histórico de preconceito contra os tipos de cabelo afro. E apesar de atualmente existir o movimento de valorização da beleza negra, o estigma ainda permanece por parte da sociedade.
Estudante de Teatro na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Michel Carvalho, conta como foi a sua experiência de usar tranças no início da faculdade, em 2019.
“Foi um pouco diferente, começaram a surgir aquelas perguntas né, tipo ’Ah, dá para lavar o cabelo assim? Como que faz para lavar?’. Tem gente que fica só olhando, que quer perguntar mas não fala nada, mas a gente entende tudo pelo olhar. Foi aí que eu comecei a entender que não é só um penteado”, comenta.
Mais que um penteado
Para as comunidades africanas, tudo que envolve o “Ori”, palavra do iorubá que significa cabeça, é aquilo que te conecta com sua espiritualidade e sua ancestralidade.
“Não é apenas um penteado, existe toda uma história por trás, de um processo de empoderamento dessa pessoa preta que usa a trança”, explica Lara Giarola, cabeleireira e trancista que tem seu próprio salão no bairro Fábricas, juntamente com Júpiter Oliveira, de quem é sócia.
As tranças são parte da ancestralidade, ou seja, da herança do povo preto, uma tradição milenar que ainda sobrevive nos dias atuais. Esse processo geracional, que faz parte da vida dos homens e mulheres pretas, teve também papel ativo na vida de Jelciane Silva, trancista e maquiadora que tem um salão no bairro Santa Terezinha.
Segundo ela, tudo começou com sua mãe, que trançava cabelos mas não com frequência. Sua avó também fazia penteados.
“E agora eu, que tomei como profissão”, conta a trancista, que completa sua fala exemplificando a força dessa ancestralidade: “posso estar enganada, mas acho que vem do sangue mesmo, porque eu nunca me profissionalizei, só fui praticando mesmo no manual, no dia a dia”.
Para os profissionais da área, a cultura trancista é também uma oportunidade de independência financeira, já que a maioria são autônomos e empreendedores.
Sócio da Lara, o trancista Júpiter relata a importância econômica dessa cultura. “A gente se vê em um lugar que as pessoas fecham as portas para você, então quando as pessoas fecham a porta, a gente tem que correr pra fazer o nosso, sendo pessoas pretas a gente tem que estar sempre na correria”, relata.
É sobre resgatar a autoconfiança do povo preto
Além do significado espiritual, histórico e econômico, o penteado também fala sobre aceitação e autoestima, e o trabalho de trancistas se apoia nessa possibilidade de poder resgatar a autoconfiança e valorizar a beleza negra.
É mágico, é lindo ver quando a gente devolve a autoestima para uma mulher negra”
– afirma a trancista Lara Giarola.
Confira a reportagem audiovisual!
Edição: Guilherme Besamat

Que matéria incrível !!! Parabéns Flávia 😍😍