Caroline Santos Teixeira e Lara Ramalho
Por milhares de anos, o parto foi um dos momentos mais temidos na vida de uma mulher. Isso, porque complicações no parto eram muito comuns, e a morte de gestantes em decorrência delas era bem numerosa.
No entanto, com o avanço da ciência, das tecnologias e da medicina, os partos se tornaram mais seguros e as taxas de mortalidade materna caíram vertiginosamente. Porém, ainda que este desafio pareça estar superado, as futuras mamães ainda encontram muitos outros obstáculos pelo caminho. Em especial no que diz respeito às suas emoções e percepções.
Não é de hoje que o aspecto emocional da parturiente, muitas vezes, é negligenciado por familiares e até mesmo no ambiente hospitalar. Esta situação, pode resultar em um aumento dos sentimentos de medo, dor e ansiedade durante o processo de dar à luz, levando a complicações obstétricas e à necessidade de intervenções médicas mais intensivas. Nesse contexto, o trabalho das doulas vem para preencher essa lacuna e levar mais humanização para o que pode ser um dos momentos mais especiais na vida de uma mãe.
A doula Sílvia Vilela defende que o trabalho de doulagem busca oferecer acolhimento, desde o conhecimento sobre o assunto, até o aspecto mais íntimo.
Primeiro, porque somos aliadas da família na busca por profissionais qualificados, facilitamos o acesso às informações acerca dos processos da gestação, parto e puerpério. Segundo, porque estamos ao lado, acolhendo as angústias, dando apoio emocional e nos momentos de maior vulnerabilidade, somos esse ponto de equilíbrio e confiança, para que a mulher consiga suportar os desafios que surgirem”,
– elenca Sílvia Vilela.
Ela ainda destaca que o cuidado com a gravidez e com o parto, “se tornou hospitalar e centralizada na pessoa do médico”, por isso, “os demais profissionais desse cenário, ficaram em segundo plano”.
Mas afinal, o que é uma doula?
Simplificando o termo, a doula é uma assistente de gestação e parto. Portanto, ela é responsável por auxiliar a futura mãe de forma emocional e física, podendo até mesmo, estender esses cuidados aos primeiros meses após o nascimento da criança.
As doulas não contam com uma formação específica na área. Porém, Silvia Vilela afirma que o aprendizado das profissionais é constante.
“Nós, doulas, nos formamos e qualificamos através de curso livre, e seguimos complementando os estudos e atualizando a prática com evidências científicas, participando de congressos, simpósios, conferências, etc”, enumera.

Quanto aos benefícios que a profissional proporciona, Silvia explica que a doulagem promove uma experiência positiva para a gestante.
“Além de prolongar a amamentação e reduzir os casos de depressão pós-parto, também reduzimos os custos hospitalares, com menor uso de medicamentos e procedimentos, reduzindo o tempo de internação”, argumenta
Muitas famílias já reconhecem as vantagens de um acompanhamento com tais profissionais e solicitam a presença delas durante todo o processo gestacional.
A presença das doulas no momento do parto é regulamentada em muitos locais, como o caso de São João del-Rei: a “Lei das Doulas” foi sancionada em dezembro de 2021, permitindo que elas estivessem presentes na hora dos partos realizados nas casas de saúde da cidade, se as famílias assim desejarem.
Em novembro de 2022, inclusive, ocorreu um ato em comemoração a aprovação, em segundo turno, do então projeto de lei que tramitou na Câmara Municipal, após ter sido apresentada pela vereadora Lívia Guimarães (PT).
A relação da doulagem com a obstetrícia
Porém, ao passo em que as doulas ganham mais espaço na sociedade, algumas polêmicas em torno da profissão tornam-se mais fortes. Os desentendimentos com alguns profissionais da medicina, em especial da obstetrícia, fazem parte da realidade da doulagem.
“Os conflitos existem, porque existe muita confusão sobre o que é função de cada um, e falta de ética de algumas partes. Existem conflitos de interesses”, afirma Silvia.
Ela atribui tais divergências, ao fato de as doulas denunciarem violências obstétricas que ocorrem durante os partos. Principalmente, os que utilizam o procedimento na cesárea.
Nas palavras da doula: “empoderar uma família para vencer o ‘sistema cesarista’, estamos dificultando a ‘linha de produção de bebês’. Quando uma família conhece os seus direitos e lutam pelo parto humanizado, percebem que o comum é o oposto”.
Edição: Gabriel Rios
Imagem de destaque: reprodução / Instagram – @doulasdesjdr
