Marina Santana
Desde pequena, eu sempre sonhei acordada observando as ruas por onde passava. Fachadas com cores pálidas, casas abandonadas, árvores frondosas e pés de primavera rosa escuro.
Durante a infância tudo é meio mágico e eu sentia que era uma princesa do reino das fadas quando ia comprar pão para minha avó e andava pela calçada coberta por flores do pé de jambo que tinha no caminho.
Apesar de sonhar observando aquelas esquinas, nunca senti que ali era exatamente o meu lugar, eu queria conhecer mais e mais e mais.
Acho que os detalhes de uma cidade importam mais que qualquer outra coisa. Veja bem: uma árvore de pau-brasil que inunda o chão da praça de sementes vermelhas me diz mais sobre o bairro onde cresci do que seu nome que vem de alguém aleatório.
Aquela cidade foi minha casa e seus detalhes importam sim, até porque, como não ser marcada pela praça com nome de réptil, dia de promoção do sorvete ou pelo domingo ao som de alguma música baiana que alguém na rua fez questão de colocar no último volume?
Mas é que eu sempre gostei mais de casas antigas e ruas arborizadas que muros altos e moradias quadradas e sem graça.
Não acredito em destino, mas às vezes me parece uma explicação bem plausível – eu me mudei para um lugar que nunca tinha sequer ouvido falar, com características que me acolhem, me enchem os olhos (e a alma).
Vim parar em São João, que também é morada de tantas outras pessoas que saíram de suas casas em busca de um sonho, um diploma ou de pertencimento.
Aqui, as pessoas te acolhem com um sorriso, um bom dia e um comentário sobre o clima que muda tão drasticamente dependendo do horário.
Vira rotina passear pelas ruas de pedra, tomar um sorvete e encontrar inesperadamente algum conhecido que te cumprimenta de longe (a gente se viu quarta passada no forró).
Até a rua das casas tortas aqui parecem certas de alguma forma, preenchendo por inteiro o nosso corpo com a sensação de estar em casa.
E ninguém nunca se cansa, ainda que tudo permaneça igual, é sempre uma surpresa quando a gente vira uma esquina e encontra um lugar novo – é a mesma coisa com aquelas pichações da palavra que só existe na língua portuguesa, e acho que só faz sentido mesmo para quem mora aqui no Brasil…
É assim que a gente vive por aqui – um dia de cada vez, caminhando por aí com alguém que de repente nos diz com a voz embargada por um sorriso.
Olha só, um ‘Saudade’!
Imagem de destaque: Marina Santana

Parabéns Marina
Lindo texto 👏👏👏