CRÔNICA: O QUE ESCONDEM OS OLHOS DOS VERDADEIROS HABITANTES DAS UNIVERSIDADES?

Foto: Daniel Lincoln/Unsplash

Sofia Teixeira

A universidade que frequento tem vários campi: – esses com suas semelhanças e discrepâncias. Alguns têm cursos de humanas, outros de exatas, outros misturam tudo. Tem gente de todo jeito: alta, baixa, gorda, magra, todas as cores, gêneros, sexualidades, backgrounds econômicos e culturais… Mas uma coisa eu vi que todos têm em comum, sem exceção. Uma riqueza, uma presença visível e invisível, de um tamanho e variedade notórios.

Sobre o que estou falando?

Nos corredores, há potes com água e comida, sempre limpos. Nas salas, muito frequentemente, há um ou dois indivíduos diferentes sentados, prestando atenção na aula, seja lá qual for o assunto. Aqueles alunos de quatro patas (ou menos, dependendo de sua história de vida sofrida ou aventureira) vivem e são a UFSJ. 

Eles veem todas as turmas, todos os alunos. Conhecem todos os professores, funcionários. Sabem que no horário “x” há um maior fluxo de gente passando. Manjam que a coxinha da lanchonete da esquerda é mais gostosa, então vale a pena passar por lá.

Durante a noite, sabem que faz frio e é necessário unir-se uns aos outros para manter o calor dos corpos. Que certo fulano gosta menos de carinho e pode significar um perigo, embora seja uma figura rara por ali. Que uma pessoa querida, presente por tantos anos, nunca mais apareceu – e ela não foi a primeira a sumir.

Eles também têm a noção que a chegada de um novo companheiro de morada nas terras da universidade pode significar abandono, uma alma traumatizada e triste, e é preciso ter paciência. 

No meu campus, o CTAN, reza a lenda que todos os alunos que ficam por anos sem conseguir se formar tornam-se cachorros e ficam aqui para sempre, cuidando e zelando pelos outros alunos que vão chegando.

Quem sabe, neste ou em outro universo, essa maneira (honrosa, convenhamos) de se formar não é real? E que estes pequenos observadores, na verdade, são antigos figurantes do panorama geral e protagonistas de suas próprias histórias? Ou então, vai saber, o contemplado não tenha simpatizado com outro cão ex-aluno antes da transformação?

Apesar de toda a dureza da vida, de quem fica a observar centenas de pessoas por dia –  essas com suas próprias durezas – a ternura prevalece. Sabem que tudo vai ficar bem, a comida e a água limpa continuam ali. Aquela professora e aquele guardinha super legais ainda vão aparecer amanhã. O semestre vai virar e a moça que todas as noites oferecia um carinho não vai voltar mais, mas outras dez virão. E a vida segue, os dias continuam. 

Antes de chegarmos achando que dominamos o ambiente que promete realizar nossos sonhos, nos introduzir ao mundo, nos ensinar todas as coisas, é necessário lembrar que aqui vivem e frequentam outras vidas, almas, corpos.

Estes devem ser respeitados, honrados e cuidados, afinal, são eles que protegem as memórias dos dias aqui, por anos, através dos registros de seus pequenos olhinhos.

outra… Se você ficar muito por aqui, quem sabe você não é o próximo?


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