CRÔNICA: UMA VIAGEM À UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

Ana Laura Queiroz

Não se passava de uma situação comum, em um dia comum, em um horário absolutamente comum. Na movimentada Rodoviária Central de Brasília, um casal observava o ir e vir urbano. De um lado, a plataforma 110.1, que zunia em murmúrios de estudantes apressados que aguardavam o ônibus para a Universidade de Brasília. De outro, as dezenas de pastelarias, bancas de utensílios gerais e a feira livre de objetos, verduras e livros de origens questionáveis.



De longe, se avistava as luzes amarelas do letreiro. Era o 110.1 que se aproximava da plataforma, em uma velocidade igualmente questionável. O casal entra no ônibus e passa a catraca. No motor, que aparentemente não havia sido desligado ainda naquele dia, uma marmita poderia facilmente ser aquecida. Seu calor se espalhava pelo ônibus.

O motorista, já em idade avançada, olha para o cobrador claramente exausto e os dois se encaram por um momento. Sem espaço para descrição, o cobrador berra:

Alguém sabe o caminho para a UnB!?


Em um silêncio inédito no caminho rotineiro, o casal observa surpreso. Gargalhadas envergonhadas começam a surgir aqui e ali. Ora, que segredo havia em guiar este percurso?



— Isso é sério? — Pergunta um jovem, quebrando o silêncio.

— Claro que é sério! — Responde o cobrador. — O fiscal trocou nossa linha e nem eu nem o motorista sabemos.



No relógio marcava meio dia. No termômetro, a temperatura passava dos 34°C cerratenses. Ao fundo, uma voz aguda, mas confiante, surge. Era um jovem, na casa dos vinte e poucos anos. Mochila nas costas, óculos de sol sobre os cabelos.


— Bora, tio! Eu passo no caminho! — gritou, enquanto se dirigia à cabine do motorista e o ônibus seguia rumo à Esplanada dos Ministérios. — Tu sabe, né? Pega a Esplanada aqui, entra na via L2 e pega a L3 depois. Tranquilo?

— Tranquilo. — Responde firme o motorista.



O murmúrio volta à normalidade de um dia comum. O ônibus entra em direção à L2 quando, ao passar a entrada da L3, o motorista segue reto.



— Qual foi, motorista? Tu não disse que sabia!? — Berrou o jovem, irritado.

— Aquela era a L3? — Responde, pasmo, o motorista.

— Sim! — Grita ainda mais alto.

— Me esqueci.



O clima retorna ao silêncio. O casal observa o movimento enquanto reza, de pé junto, para que não percam a prova marcada para aquela tarde.


— Presta atenção, tio! — Reitera o jovem em tom firme. — Tu vai virar à esquerda na próxima rua, naquela escola ali, e vai cair na L3. La, tu vira à direita de novo e mantém na faixa da esquerda. Ok?

— Beleza, entendi. — Responde o motorista.


Até hoje, suspeita-se que aquele homem era pró-Lula e que o vermelho ardia em seu coração. De tudo que foi falado, acredita-se que ele só ouviu “esquerda”, porque o ônibus entrou da L3 na contramão, cortando as três faixas. Nessa hora, havia gente rezando, tentando escapar pelas janelas e pedindo para parar.



— Porra, tio! Você quer matar a gente, parceiro!? — Esgoelou o jovem, com toda a força da sua voz.

— Tu falou esquerda, moleque! — Respondeu, enquanto o seu corpo em movimento indicava uma freada extremamente brusca.

— Eu disse “vira a direita e mantém a esquerda”! Por Deus!

Enquanto o cobrador se matava de tanto rir da situação, o motorista deu ré no meio da L3, saiu para o acostamento e pegou o retorno para entrar na UnB.

Passado alguns minutos, finalmente em solo firme, o casal respira fundo.

Ainda faltavam 40 minutos para a prova. Ao passar pelo motorista, acenaram e foram retribuídos com uma alegria que todo o risco de vida que haviam passado ali foi esquecido. Fato é: anda cada vez mais difícil se sair bem em uma prova na Universidade de Brasília.


Imagem de destaque: reprodução / Freepik

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