Geovana Nunes
Avesso. Avulso. sem sentido. Afonso. Alfafa.
O vira-lata sente medo andando atrás de um trio. Se assusta com os movimentos ao seu redor. Rabo entre as pernas. Passa pelo pássaro. Se assusta com o ruflar de asas que não batem. Vira a esquina na UPA e some de vista. Se não é visto, vive? Se não é visto, existe?
O senhor de cabelos cinza e camisa azul passa pelo pássaro. A moça de botas brilhantes passa pelo pássaro. Mas quando ela passa não tem mais pássaro para passar. O ônibus passa pelo pássaro. Mas já não tem pássaro para passar.
O pássaro amarelo atravessa a faixa de pedestres como se pedestre fosse. O pássaro some. O pássaro passa.
Palavras vomitadas coitadas de observações sonolentas.
Passa outro cachorro. Sem rabo. Passa uma bolsa de girassóis, um tênis rosa fluorescente. O beija-flor fica deformado nas costas contraídas e contrariadas da mulher com cara de rica, nojenta e insuportável.
Muito me admira uma tatuagem tão mal feita num corpo com tanto acesso. Breguice é coisa de classe. Roupas que imitam sacos de lixo e tênis destroyed.
O homem insuportável ao meu lado no ônibus: não cala a boca. Não cala a boca. E eu escondo as palavras porque ele não pode ouvir. Tem milhões de acentos. Mas ele fica do meu lado. E não cala a boca.
A senhora ao meu lado na sala de espera da consulta não cala a boca. E eu estou com fome. E ela não para de falar. E fala, fala, fala, fala, fala e fala.
Enquanto isso, o atraso da psiquiatra afasta os pacientes. E eu continuo com fome. Eles vão embora? Queria que fossem. Aí eu iria embora mais rápido. Tomara que eles vão.
Elas. Porque só tem mulheres na sala de espera da psiquiatra e ponto final.
Chegou um senhor. Mas isso estraga minha finalização. Ele tem uma bolsa grande. Um cheiro forte e um sapato bonito. Não é paciente. É vendedor.
No fim, só tem mulheres na sala de espera da psiquiatra e ponto final.
Foto: Geovana Nunes
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