ARTIGO: O FENÔMENO NPC – RIDICULARIZAÇÃO OU NOVO EMPREENDEDORISMO?

Luísa Meinberg

O fenômeno crescente das lives NPC (Non Playable Character), chegaram no mês de setembro ao conhecimento do público externo ao TikTok e despertaram um misto de curiosidade e estranhamento. O motivo é o formato e o conteúdo das transmissões ao vivo: pessoas com filtros ou maquiagens de personagens secundários de jogos, passando horas em frente a câmera, enquanto realizam movimentos repetitivos, vozes infantilizadas e sons oriundos dos jogos que interpretam, reagindo enquanto os usuários mandam presentes em formato de emojis e dinheiro.

Essa tendência apresentou uma maneira relativamente fácil de ganhar dinheiro, tendo como base a exposição e muita auto ridicularização.

Apesar do estranhamento natural à primeira vista, é inegável que um dos pontos positivos dessa onda seja a facilidade de monetização, que nesse caso, consiste em ganhar metade de U$0,01 (meio centavo de dólar) por moedinha recebida, no TikTok.

É uma forma ridícula de fazer isso, sim. Porém é bem simples e contundente com uma parte do universo cibernético de personagens, jogos, exposição, fetichização dos corpos e performance, principalmente sendo uma atividade que não demanda esforço intelectual e criação de conteúdos, apenas repetição de movimentos, domínio das características do personagem e das ações imediatas de performance, como fingir comer um milho, agradecer por uma rosa, além de, é claro, um público que o acompanhe.

Se estão fazendo é porque compensa, e quem faz esse tipo de live mostra até os números recebidos, como prova de que “não é à toa”: afinal as pessoas escolhem consumir.

A busca desesperada por engajamento social no meio virtual, em especial por parte do público jovem, sempre causa estranhamento nas gerações millennial ou mais, que veem o trabalho de forma um pouco diferente da geração Z.

Quando vi pela primeira vez, fiquei horrorizada e pensei “Eu não faria isso jamais”, mas, depois, pensando nos porquês, entendi que eu não faria porque não estou acostumada.

A minha geração (aqui estou generalizando) ainda se prende na importância do trabalho intelectual/braçal e não sabe utilizar das possibilidades alternativas de conquistar dinheiro (e claro, a fama) como os influenciadores, principalmente do TikTok, vêm fazendo.

Apesar de achar esse caso ridículo e até humilhante, avalio problemático, aqui, principalmente as formas como o capitalismo vem encontrando de transformar o mercado, possibilitando que esse tipo de conteúdo gere receitas absurdas aos usuários e plataformas.

Plataformas como TikTok seguem com pouco ou nenhum controle ou limitação do conteúdo, apesar de suas diretrizes informarem que não permitirão vídeo repetitivo, não autêntico e degradante.

Eles não restringiram, nessas lives, a sexualização, as idades permitidas e nem os valores, afinal de contas, a plataforma e seus financiadores lucram exorbitantemente mais, com seus milhões de usuários e o ibope.

Querendo ou não, o que geralmente indigna nesse tipo de coisa é o traço comparativo de ver pessoas ganhando milhares de dólares em horas, enquanto a maioria massiva dos trabalhadores recebe salários ínfimos ou passa fome em troca de trabalhos bem mais cansativos, extenuantes e até mais humilhantes. Sem contar o fato que, mesmo dentro desse próprio mercado digital, os influenciadores que promovem outro tipo de conteúdo (educativos, artísticos, bem trabalhados), perdem engajamento se comparados aos envolvidos em conteúdos nesse formato, que acabam influenciando o próprio algoritmo a reter o público.

NFTs, NPCs e outras tantas siglas são tendências que vêm e vão mais rápido do que nossa adaptação a elas. São formas de interagir, processos cíclicos, caminham de acordo com hábitos e épocas.

Não considero que estes sejam formatos justos de trabalho, pela desproporção financeira, mas principalmente por essa forma como o sistema virtual insere e viraliza isso, mesmo que agora a moderação do TikTok restrinja a visibilidade, e sabendo que, provavelmente, coisas mais bizarras ainda estão por vir.


Imagem de destaque: reprodução / rede social

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