
Lucas Magelle de Paula Ferreira
Aquele momento chegou, daqueles que prendem a respiração e não aparece nenhuma hipótese de melhoria. O pior acontecimento que sua cabeça tanto gritava que ia ocorrer aconteceu.
O engraçado são os fatos que acontecem antes: um pé esquerdo ao levantar da cama, o cumprimento que não foi recíproco ou até um telefonema errado. Tudo vira uma sucessão de analogias que o universo estava te mandando que algo estava errado e você não percebeu. Ou melhor, não teve tempo de perceber.
O mundo estava girando e gritar ou correr para ficar debaixo da cama para deixar sua mãe resolver todo o problema não é mais possível.
Essa é a história do meu último mês, entre um problema e outro a respiração ficava ofegante entre os últimos dias. Entre uma reprovação da prova de rua na autoescola, um não ouvido entre os sussurros de um bar qualquer, um ataque de ansiedade no meio da rua que gerou uma convulsão e um desligamento de um emprego, as coisas não foram fáceis.
Pra falar a verdade, acho que não assimilei ainda tudo que aconteceu.
E meus dias se passaram, tentei me apresentar e ser forte perante tudo, fui de peito aberto pro mundo com o rosto valente e busquei encontrar em que momento eu deixei tudo acabar tão fácil assim. Todos os acontecimentos foram na mesma semana, era fato de que eu tinha feito algo de errado.
Acontece que eu não fiz. Não deixei de fazer nada daquela rotina monótona que me prendia das segundas aos domingos. Liguei para minha mãe pela manhã, perguntei dos meus cachorros, disse que os amava e segui para todo o desenrolar da história que citei acima.
Após toda reflexão, tudo que restou em mim foi o vazio da culpa. Culpa de algo que não fiz, de algo que não deixei de fazer e isso gerava um buraco fundo em definir tudo.
Nunca fui bom em entender meus sentimentos, tão pouco em entender os dos outros, Logo, uma sucessão de azares tinham muito mais haver sobre mim do que sobre o mundo e suas engrenagens.
Cheguei em uma conclusão: será isso uma punição divina?
Me deitei, desejei que fosse mentira, desejei não acordar por um tempo e então fechei meus olhos.
O fato é que o outro dia chegou. Acordei relutante. Ao observar cabisbaixo o mundo e abrir a janela do quarto, notei algo incomum: tudo estava exatamente igual antes.
Meu café continuava do mesmo jeito, assim como as conversas nos restaurantes e com os amigos, o gosto das falas e o som do meu paladar não foram alterados.
A mensagem da minha mãe enviada todo dia às 7 horas ainda estava lá, assim como a não respondida da minha irmã enviada às 23 horas pois já estava dormindo.
Fui para a academia e percebi que os aparelhos continuavam no mesmo lugar, assim como os boas tardes e as respostas padrões de todo instrutor, a ligação para a autoescola também continuava igual, assim como o horário agendado para marcar o próximo exame de direção
Cheguei a negar em alguns poucos segundos, mas percebi que a vida continuava igual. Segurei um riso inepto pós consideração, daqueles que prendem na bochecha mas escapam pelos dentes.
Que fato bobo afinal, percebi que podia recomeçar e tentar tudo novamente.
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