
Luisa Arvelos
Seis da manhã e o despertador toca. Oração, banho, café e trabalho.
Vinte minutos caminhando até chegar ao escritório. Na metade do trajeto, a senhorinha na janela. Todo dia. Do mesmo jeito: cabelo de algodão penteados, braço apoiado, sorriso no rosto e um “bom dia, filha, bom trabalho”. Não a conheço, mas seu bom dia melhora meus dias. Às 17h, fim de expediente. O cansaço maltratando e os serviços de casa esperando. Faz janta, põe roupa para lavar, varre e tira o pó. Outro banho e cama. Já são 22h e eu só quero ler um pouco para relaxar. Mas na volta para casa, o mesmo sorriso na janela. Do mesmo jeito.
“Boa noite, minha filha, bom descanso”
Na correria do dia a dia, são segundos que valem a pena. Ali, diante daquela carinha feliz, recarrego um pouco a esperança. Visualmente abalada, doente e fraca, a vovózinha faz questão de transmitir felicidade. Por segundos, paro de reclamar e lembro de agradecer. A exaustão abre os caminhos para onde quero chegar. E quando deito e penso “amanhã tudo de novo”, lembro que de novo também vai ter o bom dia com sorriso largo.
Todo dia era a mesma coisa. Acredito que ela passa o dia ali levando leveza pra quem passa. Cumprimentá-la também tinha virado minha rotina.
Até que uma manhã ela não estava ali. Tudo bem, acordou mais tarde. A noite também não. Deve ter feito uma viagem ou está com visita. No outro dia, a mesma coisa. Na volta, perguntei a um vizinho.
Lembrei de agradecer a vida. Ela me ensinou isso.
E nunca mais apareceu…
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