
Lisley Cruz
Mais do que nunca, a representatividade LGBTQIAPN+ é pauta que movimenta e ganha destaque na boca do povo. A mídia tem o poder de oferecer lugar de fala e trazer a luz situações importantes para toda a sociedade e as minorias tem total percepção da diferença que essa representatividade midiática promove.
É por toda essa mobilização crescente que, dos últimos anos para cá, pautas raciais, feministas e voltadas para a comunidade LGBTQIAPN+, por exemplo, alcançaram patamares nunca vistos anteriormente, como as telas da Rede Globo.
A maior rede de televisão comercial do Brasil e segunda do mundo todo, tem inegável poder sobre a população nacional. Ou seja, o que é pauta da rede Globo vira assunto nas redes sociais, nas residências, nas escolas e em todos os cantos.
Dessa forma, quando um casal homoafetivo ganha as telinhas globais no horário nobre, já é um marco da representatividade midiática.
Porém, até que ponto essa visibilidade é benéfica para a comunidade?
Ramiro e Kevin, personagens da atual novela das 21h, “Terra e Paixão”, desbancaram o casal protagonista e se tornaram queridinhos do público.
Com seu enredo cativante e personalidades carismáticas, o garçom dançarino e o peão interiorano conquistaram o coração do público e tiveram crescimento visível em seu tempo de tela enquanto casal, protagonizando cenas afetuosas e funcionando até mesmo como uma espécie de alívio cômico para a trama.
Essa relevância de “Kelmiro” – modo como o casal é chamado pelos fãs da novela – tem o poder de tirar a pauta LGBTQIAPN+ da bolha social em que ela se encontra e remexer muitos olhares conservadores.
Diego Martins, ator que interpreta Kevin, inclusive confessou espanto ao perceber o quanto Kelmiro ganhou tanto apoio dos telespectadores, desde a parcela jovem até as senhoras que maratona todas as novelas da casa.
Já Amaury Lorenzo, ator que dá vida a Ramiro, confessou, no Caldeirão do Huck, estar emocionado pelo afeto que o casal recebeu, reconhecendo a importância desse papel ao desestruturar a masculinidade tóxica e os padrões sociais impostos a um capataz com marra de machão.
Sem dúvidas, grande parte da audiência da trama de Walcyr Carrasco se deve a Kevin e Ramiro, e esse é um dos motivos pelos quais o casal deveria receber maior valorização, respeito e ser olhado com mais cuidado.
Apesar de que ao passo de que o casal foi caindo nas graças do público, ambos ganharam maior profundidade, os personagens ainda estão envoltos em diversos estereótipos que demonstram que, embora haja avanço, o caminho para a representatividade e inclusão plena ainda é longo.
O tempo de tema destinado a Kelmiro cresceu, entretanto, seu espaço é, muitas vezes, limitado a comédia ou simplesmente tem seus momentos românticos censurados.
Assim como aconteceu em “Vai na Fé” com o casal lésbico Clara e Helena, houve rumores de que Kevin e Ramiro também tiveram seu tão esperado beijo censurado. A suposta cena do beijo intenso em “Terra em Paixão” era previsto para ir ao ar na última sexta-feira (15) e foi cortado TV.
Segundo a Veja, essa determinação veio do alto escalão da Globo que temia a fuga de audiência devido ao conservadorismo dos telespectadores. Entretanto, a emissora negou as acusações e garantiu que essa cena não estava nos planos.
O ponto criticado é que, aparentemente, o amor LGBTQIAPN+ é apenas suportado em uma abordagem caricata e quando esse envolvimento “passa dos limites”, a pauta volta a ser um tabu, sendo, ou censurada – como Helena e Clara, ou postergada ao máximo – como Felix e Niko, em “Amor a Vida”.
Na atual novela das 21h, é especialmente fácil notar como uma certa heterossexualidade compulsória se desenha ao passo de que os relacionamentos héteros, sua sexualidade e afetos são escrachados e o casal gay da trama, ainda que bem construído ao longo de todos os episódios, não tem direito a um beijo real.
A força dos telespectadores é crucial para a mudança de chave. O que espera-se é que com o apoio recebido pelo público, Kelmiro rompa essas barreiras e contrariem o costumeiro retrocesso das emissoras brasileiras sobre pautas tão importantes para a sociedade e continuem crescendo na trama e no coração dos fãs de “Terra e Paixão”.
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