
Flávia Simas Lifonsino
Estamos em uma era totalmente tecnológica, com transformações constantes que permitem-nos vivenciar mudanças muito rápidas. Tudo é fácil e descomplicado. As informações estão a um clique de distância. Mas será que estamos preparados para lidar com tanta “evolução”? Bom, muitos comportamentos virtuais que acompanhamos nas redes sociais mostram que não.
Essa facilidade na comunicação deu às pessoas uma sensação imensa de poder. A internet permite-nos replicar opiniões, escrever comentários, postar conteúdos sem que saibam quem realmente é você. É encorajador saber que pode-se dizer qualquer coisa direta ou estando indiretamente protegidos pelas telas. A ilusão de impunidade faz com que ninguém se preocupe com possíveis consequências de atitudes criminosas nas redes.
Já ouviram aquela famosa frase “quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra”?
Pois bem, aparentemente a maioria dos internautas desconhece esse conceito. Vemos a todo momento pessoas destilando ódio nas redes sociais, discriminando e julgando outras pessoas, que quando erram são massacradas e canceladas nas mídias sociais. Essa reação ao erro alheio diz mais sobre quem escreve do que sobre o alvo em si.
O que agravou essa situação é que a internet trouxe liberdade para seus usuários, encorajando-os a debater suas ideias e opiniões, o que é ótimo. “Viva a liberdade de expressão!” Porém, as pessoas passaram a usar essa ferramenta para ferir e atacar o próximo. São tantos os episódios de internautas sendo preconceituosos, intolerantes e desrespeitosos, justificando esses comportamentos como “pontos de vista”.
Afinal, o que é a Cultura do Cancelamento?
O cancelamento virtual pode ser definido como uma reação extremamente negativa do público diante de alguma situação, mais comum em relação a alguma opinião que contradiz os valores dessas pessoas ou que entra em desacordo com o famoso “politicamente correto”. Sendo assim, a pessoa que expôs essa opinião sofre um tipo de linchamento virtual, onde é xingada, criticada e cancelada, em casos de pessoas públicas, perdem parcerias, contratos e trabalhos.
- Karol Conká
Um dos casos mais conhecidos de cancelamento virtual é o da cantora Karol Conká, que foi cancelada após sua participação no BBB 21, resultado de um conjunto de atitudes questionáveis durante sua estadia no programa.
Considerada abusiva, manipuladora e agressiva, foi eliminada com 99,17% de rejeição pelo público, batendo o recorde de todas as edições do reality.
Apesar de seu comportamento ter sido repudiável, a cantora recebeu tanto hate nas redes sociais que em uma recente entrevista para a Tati Bernardi, revelou que pensou em tirar sua própria vida após sua eliminação e só desistiu após receber ajuda psiquiátrica.
- Monark
É claro que não podemos compactuar com nenhum tipo de conduta errada que fere os direitos das pessoas. Há casos em que essa reprovação do público é necessária para começarmos a refletir sobre os nossos comportamentos e posicionamentos.
É o caso do que aconteceu com o youtuber Monark, que durante o Flow Podcast fez apologia ao nazismo e quando questionado, disse que apenas estava defendendo a liberdade de expressão.
É inaceitável não questionar e repreender esse tipo de fala que vai contra os princípios básicos de respeito à história das vítimas do holocausto. Devido à repercussão, o canal apagou o episódio e o youtuber foi demitido.
- Luísa Sonza
No entanto, não há muitos critérios no mundo virtual e as pessoas são canceladas diariamente por diversos motivos diferentes. Às vezes compreensíveis como o caso citado anteriormente ou nem tanto, como foi o caso de Luisa Sonza, que foi cancelada após o boato de uma suposta traição na época de sua separação com o humorista Whinderson Nunes, em 2020.
Mesmo sem a confirmação do ocorrido, a cantora foi duramente julgada e condenada pelos internautas por anos. A ponto de sair do Brasil temendo por sua vida. Luísa, relatou em diversas entrevistas que todo esse ódio recebido gerou muitos danos psicológicos a ela.
Atualmente, tornou-se público que a cantora foi traída pelo seu ex-namorado, Chico Moedas e mesmo sendo a vítima da situação, quem está recebendo grande parte dos ataques é ela.
Os juízes da internet são mesmo justos?
O grande problema dessa cultura do cancelamento são os danos irreparáveis causados na vida dos alvos dos internautas.
É realmente necessário disseminar tanto ódio a alguém por uma suposta traição? É válido jogar tanto hater em alguém a ponto dessa pessoa cogitar o suicídio? Em pleno “setembro amarelo” vale lembrar que todas as atitudes têm consequências e na internet não é diferente.
Cada comentário tem impacto na vida de quem está lendo. No mundo on-line vemos uma perfeição que não existe.
Todos se sentem no direito de apontar o dedo para os outros sem pensar nos próprios comportamentos errados. Ninguém é perfeito 100% do tempo.
Estamos em constante aprendizado. O ódio gratuito não resolve nenhum problema, apenas gera outros.
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