Giovanne Alcântara e Harume Suzuki
Foi a partir da ideia de criar um espetáculo que aproximasse o público com a arte e valorizasse o interior, que surgiu o “Em Julho eu Volto”, apresentada recentemente no Campus Tancredo Neves da Universidade Federal de São João del-Rei. O projeto é uma peça realizada pelos artistas e estudantes da instituição, Anninka, Sabrine Mairan, Matheus Correa e Rick Ribeiro.
Na obra, o público é convidado a uma viagem até as cidades de Ibaté e Ibiúna, no interior de São Paulo, a partir de uma colcha de retalhos e memórias por meio de canções sertanejas.
Vivemos ainda dentro do teatro sob um peso eurocêntrico elitista, onde muitos atores, diretores e professores ainda repetem fórmulas de séculos passados e tem isso como uma verdade absoluta. O que é muito triste, pois acabam sempre por renegar tudo que é do popular e brasileiro, que é a nossa maior riqueza. Mas aos poucos os olhos vão se abrindo e a decoloniedade vai entrando em cena. O brega há de sempre vencer os caretas!”
– afirma o diretor de teatro, Matheus Correa.

A ideia do espetáculo surgiu da Ana Alves (também conhecida como Anninka). Ela reuniu músicas que faziam parte da sua memória afetiva e de muitos outros brasileiros.
Em uma conversa com sua amiga e companheira de palco Sabrine, Anninka disse que era seu sonho apresentar sertanejo na Sala Preta, o espaço voltado para as produções acadêmicas ligadas ao curso de Teatro da UFSJ.
Ao Notícias del-Rei, entretanto, elas contam que, algumas vezes, sentiam que essa afinidade com o viés sertanejo era colocado em um “patamar artístico inferior” diante membros da própria comunidade acadêmica do curso.

Quando o público se vê no palco
Comentários sobre a identificação do público com o tema emocionou todos os envolvidos nessa produção.
“Uma pessoa da plateia disse que “se viu no palco” e era uma das primeiras vezes que isso acontecia. Muitas pessoas que vem para a UFSJ estudar, partem de suas cidades natais em busca de um futuro, e percebemos que um grande número vem ‘de interiores dos interiores’ e muitas vezes não se enxergam ou se podam durante o processo de ‘academização’ polindo seu sotaque, mudando suas vestes para caber em uma outra forma”, narra Matheus.
O diretor ainda aponta qual é, para ele, o ponto mais importante da peça: “fazer com que o interior seja visto com respeito e que as pessoas se vejam naquelas personagens, fugindo de possíveis paródias e piadas que ridicularizam o caipira”.

“A peça ressignificou a minha concepção de música sertaneja, me trouxe sentimentos, sensações e muita memória afetiva, como pessoa que sempre morou no interior. Traz a arte para um lugar popular, acolhedor e nem por isso menos nobre. Me levou de volta para as quermesses da infância, as canções que minha mãe ouvia e o aconchego da casa da minha vó. Eu só percebi o quanto a música sertaneja estava ligada à tudo isso, depois de assistir ao espetáculo”
– afirma Carlos Alberto, espectador da peça.

Imagem de destaque: Harume Suzuki
Edição: Arthur Raposo Gomes
