O XADREZ DOS SINOS: A PRÁTICA DO JOGO DE TABULEIRO EM SÃO JOÃO DEL-REI

Rayane Késsia e Luiza Tomey

Nos últimos anos, a prática de xadrez cresceu no quesito popularidade. Essa nova onda de popularização surge com características ligadas a modernidade. No período da pandemia de Covid-19, o site Chess.com, uma plataforma de xadrez on-line, contabilizou aumento de 43% de registros entre 2020 e 2021 no mundo todo.

Ainda segundo dados da plataforma, no Brasil, os índices foram de 38.039, pontuados em março de 2020, para 144.668 em março de 2021.

Mas como é a realidade em São João del-Rei?

Na cidade, um dos projetos existentes é o “Xadrez nas Comunidades” – mantido como iniciativa de extensão da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e coordenado pelo técnico-administrativo, Rogério Alvarenga.

Ele conta que aprendeu a jogar xadrez ainda nos anos 90, quando as tecnologias não apoiavam o estudo do esporte e os momentos para praticar eram raros. “Eu jogava por lazer, de vez em quando”, comenta.

Na pandemia, Rogério ensinou o filho a jogar e, percebendo a importância do esporte, agregou os ensinamentos nos projetos de educação ambiental dos quais participava, em escolas públicas.

“Com o crescimento do xadrez que aconteceu com a pandemia e com a série ‘O Gambito da Rainha‘, percebi que o xadrez também poderia ser muito importante para o desenvolvimento das crianças e adolescentes, para a inclusão social”, revela Rogério.

O “Xadrez nas Comunidades” vem promovendo inclusão e democratização no xadrez.
(Imagem: divulgação / “Xadrez nas Comunidades”)

O projeto “Xadrez nas Comunidades” foi aprovado como projeto de extensão pela UFSJ em 2022 e, desde então, vem conquistando muita atenção.

Segundo Rogério, este ano, os professores associados atendem mais de 50 alunos, e ainda não conseguiram contemplar todos os interessados.

O projeto participou das edições 2022 e 2023 do “Inverno Cultural UFSJ”, promovendo oficinas de xadrez. O coordenador revela que “as vagas esgotaram rapidamente, o que mostra o crescimento do interesse pelo xadrez”.

Rogério afirma que “os benefícios de treinar xadrez podem ser diversos: memória, paciência, concentração, confiança e interação social”.

Acima de tudo, ele enxerga o xadrez como um esporte democrático e de baixo custo: “você só precisa de tabuleiro, peças e alguém para te ensinar, para jogar”. 

Uma vez que seus alunos são contemplados, o ensino do jogo é repassado. “Ao mesmo tempo, ele vai ocupando e se sentindo à vontade em espaços onde acontecem as aulas e as partidas de xadrez, como a Universidade, a própria escola, praças, shoppings, torneios estudantis ou até profissionais”, pontua Rogério.

Em 2017, como forma de fomentar a prática do jogo na cidade, surge o projeto “Xadrez do Rei“, com a organização do professor Plínio Pacheco.

De encontros amistosos até sua consolidação como clube, a iniciativa procura fomentar torneios e campeonatos regionais, além de esclarecer aos cidadãos são-joanenses que o jogo é de extrema importância e relevância no meio de formação intelectual, moral e educacional.

Através de parcerias com o setor privado, o “Xadrez do Rei” realiza eventos tanto intermunicipais quanto regionais.

Alguns foram realizados com apoio do meio público, como a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer de São João del-Rei e a Universidade Federal de São João del-Rei. “São feitas cotas de patrocínio, que são revestidas nos gastos com a organização do torneio”, conta Plínio.

As possibilidades de reconhecimento e avanço na área, para o professor, estão diretamente conectadas à evolução pessoal.

Ele afirma: “é mais do que se tornar um atleta, é mais do que se tornar um campeão: mas se tornar uma pessoa íntegra, uma pessoa melhor.”

O ensino de xadrez em São João

O “Xadrez nas Comunidades” surge com a intenção de levar o xadrez para crianças e adolescentes de escolas públicas ou em situação de vulnerabilidade econômica e social.

Inicialmente, as aulas eram por duplas, nos campus da UFSJ e nas escolas estaduais Aureliano Pimentel e Tomé Portes del-Rei. Mas, por causa da grande demanda, aconteceu uma ampliação do programa. 

Ana Gabriela se concentra em sua partida (Foto: Rayane Késsia).

“Teve uma procura muito grande, e aí abrimos para comunidade em geral. Crianças com no mínimo sete anos, adolescentes, adultos… Já trabalhamos com idosos, também”, afirma Ana Gabriela, professora do “Xadrez nas Comunidades”.

A instrutora reflete sobre a proporção que o projeto tomou, afirmando que não conseguem lidar com a demanda: “agora que virou extensão, são dois bolsistas para ajudar, mas tivemos muitas inscrições”.

Ana Gabriela, que aprendeu xadrez aos nove anos com o irmão, se interessou pela prática quando um professor de educação física perguntou quem sabia jogar xadrez para participar dos jogos estudantis. Desde então, participou de vários campeonatos e decidiu seguir com a paixão ensinando e ajudando a proporcionar as oportunidades que teve para outras crianças.

“Eu tive muitas experiências boas participando dos torneios, achei interessante participar do projeto e ensinar outras pessoas e até incentivar mais meninas a jogarem, porque é uma área com poucas garotas competindo”, conta Ana.

Para além dos benefícios cognitivos citados pelo coordenador Rogério Alvarenga, a professora Ana argumenta como a prática também ajuda com o controle emocional.

A questão de participar de torneios  faz com que eles possam aprender a lidar com a frustração da derrota, a como manter o calma em situações desfavoráveis, além de trabalhar também com a autoestima”.

– defende Ana Gabriela.

O cenário

Apesar do cenário enxadrezista de crescimento emergente em São João del-Rei, a cidade ainda está atrás de outras cidades da região para complementar alguns quesitos. O município de Barbacena, por exemplo, também possui um cenário muito forte e conta com uma Liga Regional.

No entanto, segundo a professora: “aqui está crescendo, tem cada vez mais jogando, o interesse está vindo. Lá em Barbacena estão mais na ativa, por conta da Liga, mas são nossos parceiros e estamos tentando caminhar juntos”.

O futuro do jogo

Valentina Coelho tem 12 anos e treina com o “Xadrez nas Comunidades”. Ela foi medalhista da etapa estadual do torneio de Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG) em 2023, no qual representou sua escola, o Sesi.

Ela revela que sua maior fonte de apoio para exercitar o xadrez foi em casa, onde aprendeu a jogar com seu pai, Ricardo, e seu padrinho. No projeto, conseguiu melhorar e aprender a jogar mais a sério com a Ana, sua professora.

O jogo tem um impacto extremamente positivo para Valentina, que conta que fica muito feliz com suas conquistas. “Eu sempre fico um pouco nervosa no começo, mas depois isso passa e eu fico mais calma”, desabafa.

Sua parte preferida da prática é “saber que nenhuma partida é igual a outra e nunca existirão duas partidas iguais, assim como nunca vai existir duas zebras com as mesmas listras”.

Ricardo Coelho, pai da jovem medalhista, foi quem ensinou os primeiros passos no xadrez e, vendo o interesse da filha, demonstrou seu apoio na trajetória seguinte.

“A gente procura, de um modo geral, tentar oferecer um suporte para qualquer coisa que nossos filhos demonstrarem interesse”, afirma Ricardo.

Ele enxerga em Valentina um grande espírito competitivo. “Ela está gostando de jogar agora, está gostando de competir. Entra pra ganhar, mas tem sabido também perder e tentando sempre melhorar”, avalia.

Ele observa uma melhora de Valentina em matérias escolares como matemática desde o início da prática de xadrez aprofundada, e acredita que “jogar xadrez tenha favorecido o raciocínio lógico”.

Mas não planeja um futuro específico para a filha no ramo, e acredita que “é interessante ela estar sentindo prazer em jogar. Se esse prazer deixar de existir, o xadrez deve sair da vida dela, como outras coisas”.

Ricardo também menciona a importância da série “O Gambito da Rainha” na formação de novas enxadrezistas mulheres. “Esse aumento do interesse de pessoas do sexo feminino pelo xadrez tem um pouco a ver também com o sucesso e qualidade da minissérie”.

Sua filha Valentina é uma das admiradoras do seriado, e já assistiu todos os episódios mais de uma vez.

As peças que faltam

Para além do conhecimento, “o xadrez pode se tornar, para o aluno, uma opção profissional no futuro”, afirma Rogério Alvarenga.

As possibilidades são diversas: o jogador pode se tornar professor da prática, produzir conteúdo digital ou mesmo se dedicar a torneios com premiações. 

No entanto, a realidade traz algumas dificuldades. Rogério conta: “em São João del-Rei, ainda não temos um calendário de torneios muito ativo, e mesmo nos grandes centros brasileiros as premiações de torneios não costumam ser tão altas, o que torna mais difícil a vida do enxadrista”.

Mesmo assim, ele ainda acredita que “São João del-Rei pode se tornar um bom exemplo do Xadrez para o estado e o país, não só formando jogadores fortes, mas principalmente formando seres humanos e oferecendo oportunidades a quem mais precisa”.

No final do mês de agosto, o Grupo PET Materiais e Inovação Tecnológica realizou, em conjunto com o “Xadrez nas Comunidades”, a primeira edição presencial do “Torneio Del Rei Xadrez”.

O evento contou com duas sessões para diferentes níveis de jogadores, e marcou mais uma vitória para o cenário enxadrista de São João del-Rei.

“Mas precisamos que eventos assim se tornem rotina. Precisamos de mais torneios, com premiação para incentivar os atletas”, completa Rogério.

Quebra de paradigma

“Nós temos bons ventos soprando a nosso favor”, afirma Plínio Pacheco. “São várias iniciativas olhando para a mesma direção, ou seja, a disputa não acontece fora dos tabuleiros”, considera.

O professor ainda enxerga a necessidade de melhores conversas e iniciativas a respeito do crescimento do jogo na região. “O xadrez não deve mais ser visto como um jogo para a elite”., declara Plínio.

“Ele (o xadrez) é sim inclusivo. Pode ser jogado pelas pessoas de classe baixa, de diversos níveis sociais. Pode também ser inclusivo no âmbito dos portadores de necessidades especiais“, advoga.


Edição: Sarah Castro e Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: Rayane Késsia

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