Najla Passos *
Rita, 63 anos, estuprada e espancada até a morte por Maxuel, seu namorado. Tamara, 33 anos, assassinada pelo namorado, que não revelou onde escondeu seu corpo. Ione, 31 anos, morta pelo marido por asfixia e afundamento de crânio. Luana, 36 anos, assassinada a tiros pelo pai do filho dela na véspera do Dia das Mães.
Todas elas são mulheres reais que viveram em São João del-Rei e com quem cruzávamos no trânsito, no salão de beleza, nos bloquinhos de carnaval. Todos eles, homens que encontrávamos na missa, na padaria, nos jogos do Athletic. Por que elas viraram vítimas? Por que eles viraram assassinos?
O que conecta esses quatro crimes é a misoginia, ou seja, esse ódio às mulheres, esse sentimento de superioridade, desprezo, repulsa e até mesmo nojo de tudo o que é feminino. E isso ocorre, dentre vários outros motivos, porque homens e mulheres são socializados de forma diferente.
Eles são ensinados, desde criancinhas, a dominarem as mulheres, tomá-las como um objeto útil para servi-los sexualmente e cuidarem das casas e dos filhos deles, enquanto destinam sua admiração e afeto aos companheiros homens. Elas são versadas na prática dos cuidados com a casa, com os filhos, com os familiares.
É claro que, nós, mulheres, também reproduzimos este sistema patriarcal que nos menospreza, objetifica nossos corpos e desnaturaliza nossos sentimentos. E fazemos isso há tantos milhares de anos que já nos parece natural. Não são raras as mulheres que dizem que os homens são assim mesmo. Mas não são. Eles podem sim fazer melhor. E precisamos cobrar essa conta!
Há mulheres que já começaram a virar este jogo. Devagarinho, fomos estudando tanto que, no coletivo, já temos um grau de escolaridade bem superior ao deles. Também ocupamos mais postos no mercado de trabalho. Conquistamos mais cargos eletivos. Exigimos direitos que se transformaram em boas legislações e políticas públicas.
Falta muito para o mundo se tornar uma espaço razoável para nós… mas é impossível negar que avançamos. Por que, então, estamos sendo assassinadas e violentadas cada vez mais? É exatamente porque reagimos, porque balançamos as estruturas que os beneficiavam. E alguns deles respondem à nossa luta com ainda mais violência.
Vivemos, hoje, em um dos países que mais mata mulheres. A cada seis minutos, uma de nós é estuprada – a maioria meninas de até 14 anos. Estupros e feminicídios acontecem quase sempre dentro de casa, por homens próximos das vítimas. Então, eles não são “monstros” fabricados em situações extremas, não são exceções em um mundo ideal.
São homens comuns que estão ao nosso lado, ao lado das nossas filhas, mães e amigas. Ao lado de mulheres que amamos e queremos bem. Por isso, precisamos estar alertas. E precisamos também da ajuda dos homens que afirmam já entender que precisam mudar suas perspectivas.
Mas por que eles não estão lutando junto conosco contra este estado de coisas? Onde estão nossos companheiros, pais, irmãos, maridos, filhos e amigos? Por que nenhum deles denuncia os colegas misóginos e machistas com quem confraternizam nos grupos de WhatsApp e nas mesas de bar?
Se já tomamos a decisão de não sermos mais as vítimas, eles precisam decidir se querem ou não continuar sendo os agressores. Não podemos naturalizar que somente o papel de gênero com o qual somos socializados decida que lugar tomaremos nesta luta. Se somos todos construídos socialmente, mais do que nunca precisamos nos reconstruir perante o machismo!
* É jornalista e professora de Jornalismo da UFSJ. Pesquisa temas como mídia, gênero e política.
Imagem de destaque: Najla Passos
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