MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES VIRA ESPELHO DA PRÓPRIA CIDADE: SESSÃO “VALORES” CELEBRA A MEMÓRIA E AS CRIAÇÕES LOCAIS

Guilherme Martins

Enquanto a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes debate a “Soberania Imaginativa” e a autonomia das imagens no cenário contemporâneo, uma programação específica volta suas lentes para o chão onde o festival pisa. A partir desta quinta (dia 29), a sessão “Valores” reafirma o compromisso do evento com o território, transformando o Cine-Tenda e o Cine-Praça em grandes espelhos da comunidade.

Para além do cartão-postal

O destaque de longa-metragem da sessão é “Tiradentes: Joia do Barroco Mineiro”, dirigido pelo jornalista e historiador Otávio di Toledo. Conhecido pelo trabalho à frente do “Viação Cipó”, da TV Alterosa, Toledo documenta uma das cidades mais fotografadas do Brasil fugindo do óbvio. O filme percorre os ciclos econômicos do município, do Ouro ao Turismo, passando pela Indústria e a Prata, para revelar como o abandono e resistência moldaram a identidade do município.

“A beleza cênica de Tiradentes o mundo inteiro conhece […]. Mas o desafio seria contar a história deste patrimônio sem ser repetitivo”, explica o diretor. 

Documentário se passa em Tiradentes (Foto: divulgação)

Segundo Toledo, a chave para furar a bolha do clichê turístico foi focar no humano.

“A Tiradentes de hoje foi lapidada com muito sofrimento e luta, com quase 100 anos de esquecimento e pobreza, após o Ciclo do Ouro, e uma luta constante para encontrar um novo caminho econômico”, reflete à reportagem do Notícias del-Rei.

O documentário também lança um olhar crítico sobre o futuro. Perguntado sobre os riscos do turismo desenfreado, o diretor vê o filme como um alerta para a preservação da identidade local.

“Realmente, o excesso de construções, loteamentos, especulação imobiliária no geral, restaurantes, pousadas, pode ser um problema. Ainda não é, mas está na hora exata de estabelecer regras e manter Tiradentes dentro de um limite que respeite seu passado, suas histórias, crenças, e demais riquezas culturais”, pontua.

O lado humano da máquina

Entre os curtas-metragens, “O Trilho Invisível do Tempo”, de Luísa Meinberg e Jardel Santos, subverte a lógica turística da famosa Maria-Fumaça. Em vez de focar apenas na locomotiva, o filme volta-se para a figura de Alexandre, maquinista há mais de 20 anos, revelando a relação emocional entre o homem e a máquina.

Para a diretora Luísa Meinberg, integrante do projeto Con(fiar), o objetivo era trazer um “personalismo” para a história, tirando o maquinista da invisibilidade operacional.

“Ele (Alexandre) é o operacional. A gente não pensa em que está conduzindo, a gente não romantiza o maquinista na vida real, né? Então foi uma descoberta maravilhosa essa de saber como ele se sente, como é o fator emocional da relação dele com esse trabalho de maquinista, como a história dele sempre esteve ligada à da máquina desde criança, e como ele não perdeu o brilho, o encanto”, diz Luísa. “Conhecer a história do maquinista, criar essa ligação, só tende a engrandecer a experiência”, garante a diretora, também graduada em Jornalismo, sobre a expectativa com o filme.

Imagem: divulgação

Selecionado para a Mostra, o filme cumpre o papel de costurar passado e presente.

“Nessa costura entre passado e presente o cinema é a manta, onde a gente deposita um pouco do tempo, né. É um trilho invisível que vamos percorrendo, um caminho com muitas estações, e espero que com cada vez mais passageiros”, reflete a diretora, celebrando a seleção no festival.

Ancestralidade e Arte

Por fim, as realizadoras Elizabeth Ramos e Vitória Iabrudi, fundadoras da produtora Sobradinho, se destacam por marcar presença com três curtas diferentes na Mostra.

“Dois Tons de Preta” acompanha a rotina de Duda, trancista e musicista, mostrando como seus trançados carregam memórias ancestrais e conectam a estética à identidade territorial das Vertentes. Com “Anália”, é documentado as esculturas sonoras da artista Maria Anália feitas a partir de materiais descartados, e em “Cores de Laura”, o espectador tem acesso a um retrato poético da artista naïf Laura, cuja pintura vibrante dialoga diretamente com o movimento das ruas de São João del Rei e região.

Para as diretoras, que frequentaram o festival por anos como público antes de assumirem as câmeras, a tripla presença na grade não é fruto de uma estratégia voltada para isso especificamente, mas consequência de uma pesquisa contínua ligada ao Coletivo “Mãos do Morro”, iniciativa dedicada à valorização dos saberes populares da região.

“Essa recorrência não nasce de um projeto pensado para a lógica do festival, mas de um trabalho continuado, feito em conjunto com o território”, explicam as cineastas, ressaltando que a produtora lida com as “condições reais de produção local e com as histórias que atravessam esse lugar”.

Embora os três filmes não tenham sido concebidos como uma trilogia fechada, eles compartilham o DNA de documentar mulheres artistas cujos ofícios manuais e criativos moldam a identidade da região. Segundo Elizabeth e Vitória, a abordagem parte de uma admiração genuína e evolui para um método de criação compartilhado, onde as personagens não são apenas objetos de estudo, mas agentes ativas na construção da imagem.

“Por isso, filmar essas mulheres foi, antes de tudo, uma responsabilidade. Existe admiração pelo trabalho que elas desenvolvem há anos e pela forma como constroem seus processos”, afirmam. 

Para a dupla, cada curta responde a um universo específico, respeitando o ritmo e a trajetória de Anália, Laura e Duda, provando que o cinema local ganha força quando se dispõe a “dividir decisões e construir imagens a partir da troca”.

Em conjunto, os filmes da sessão “Valores” provam que, em 2026, a maior inovação do cinema pode ser, justamente, a capacidade de olhar para dentro e valorizar quem constrói a história no dia a dia.

Serviço

Para conferir a programação completa da Mostra Tiradentes, acesse o link: https://mostratiradentes.com.br/programacao/

O portal Notícias del-Rei é um dos veículos jornalísticos credenciados oficialmente à cobertura do festival. Acompanhe.


Imagem de destaque: divulgação

Edição: Arthur Raposo Gomes

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