“ESCREVO O QUE NÃO VEJO”: A SOBERANIA CRIATIVA DE KARINE TELES NO AUDIOVISUAL BRASILEIRO

Guilherme Martins

Em 2011, “Riscado” foi exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes. Mesmo já premiado no ano anterior em outros festivais, a exibição na cidade mineira reforçou a potência da peça central do longa: Karine Teles, até então um rosto pouco celebrado pelo grande público. No filme, Karine, que não só atuou, como também corroteirizou a obra ao lado do então marido Gustavo Pizzi, interpreta uma atriz em busca de oportunidades, lutando para não ser invisibilizada por uma indústria viciada em estereótipos.

Hoje, ao retornar à cidade histórica como a grande homenageada da 29ª Mostra de Tiradentes, o cenário é outro. Karine tornou-se uma das arquitetas do cinema brasileiro contemporâneo, construindo uma carreira longeva nos palcos, na frente e atrás das câmeras, o que fez da artista fluminense uma das vozes mais respeitadas do audiovisual.

“Está sendo emocionante reviver isso aqui na Mostra. Esse lugar de discussão, pensamento artístico e que estimula a criatividade”, celebra a atriz.

“Terem escolhido homenagear meu trabalho me deixa muito feliz, pois é nisso que acredito: que estamos nesse mundo para conversar, debater, pra pensar nas nossas solidões, fraquezas, e nossas belezas e alegrias. Estou muito honrada”, comenta Karine, durante entrevista coletiva que contou com a participação da reportagem do Notícias del-Rei.

Recém-saída do papel de Aldeíde no remake de “Vale Tudo” (2025) e aclamada por obras que rodam o mundo, como “Benzinho” e “Bacurau, a atriz de 47 anos usa sua homenagem para discutir algo que vai além do glamour: o foco no processo criativo em detrimento do resultado final.

Eu não enxergo minha rota de trabalho como uma linha ascendente. Eu enxergo ela como uma estrada sinuosa com curvas, descidas e subidas. E assim, o caminhar que é o que mais me interessa”, reflete Karine.

A atriz completa: “a parte que mais me interessa é fazer o trabalho, do que assistir o trabalho pronto. Eu gosto de assistir o trabalho pronto dos outros, o meu não. Eu gosto de fazer. Eu gosto de estar ali no ensaio, no pensamento, na filmagem, isso é o que eu amo e o que eu quero continuar fazendo.”

Entre longas e curtas, Karine já soma mais de vinte produções no cinema, que incluem “Que Horas Ela Volta?”, que lhe concedeu projeção massiva em 2015 ao dar vida a Bárbara, a patroa ricaça de princípios questionáveis. Sobre a personagem, que desperta reações viscerais no público, a atriz é categórica: “até hoje, (é) o trabalho mais difícil que eu já fiz”.

Karine durante entrevista (Foto: Leo Fontes / Universo Produção)

Quem assiste a Karine em cena sabe bem: é impossível ficar indiferente a suas personagens. Durante a coletiva de imprensa, ao ser perguntada sobre o amor ou ódio que suas personagens provocam, Karine ressalta que evita julgá-las durante a atuação, preservando a liberdade de interpretação de quem assiste.

“O que eu posso fazer é me preparar e dar o meu melhor ali para contribuir com a discussão. Mas eu não tenho como saber como quem está assistindo vai receber”, explica. É justamente essa busca pelo humano antes do arquétipo que permite que Teles transite com fluidez entre o cinema de autor e o melodrama televisivo sem perder a credibilidade.

Ainda que superprestigiada, a atriz mantém os pés no chão e admite que a autonomia artística nem sempre vence a necessidade financeira.

“Às vezes eu aceito trabalhos que se apresentam porque sou uma profissional que precisa pagar minhas contas. Claro que já passei por situações que para mim é impossível de aceitar. Já fiquei e fico até hoje em situação de não estar trabalhando porque eu não quis fazer um projeto em que não acreditava”, revela.

Ao co-escrever roteiros premiados, Karine tomou para si as rédeas da carreira. Na visão da atriz, o ato de escrever é uma resposta que nasce a partir de seus próprios incômodos e da urgência de debater temas que ela sente falta de ver nas telas.

“Para mim, a roteirista, a diretora e a atriz são a mesma coisa. É minha vontade de conversar, de discutir, são meus incômodos, minhas angústias, os meus deslumbramentos… é a minha vontade de estar conversando. Geralmente, meus roteiros vêm dessa vontade de discutir um assunto específico que não apareceu, que não está perto de mim, não vi… aí eu escrevo”, pontua.

O retorno a Tiradentes em 2026 fecha um ciclo simbólico. Se em 2011 o cinema independente vivia uma euforia de descobertas, hoje o setor atravessa um momento de reconstrução e amadurecimento após anos de instabilidade política e cultural. Karine, que vivenciou o fazer cinema no início da década passada, finaliza com uma análise sobre o papel socioeconômico do setor.

“Eu espero que a gente consiga fortalecer a indústria, não só por conta dos benefícios artísticos, que é olhar para o próprio país através da arte para a população geral, mas também porque é uma indústria que gera muito emprego. A própria Mostra, 2500 empregos gerados! É girar a economia, é trazer dignidade e uma profissão pra muita gente que está em busca de emprego. Então eu acho que pra gente ter uma indústria forte e estabelecida a gente precisa de diversidade, a gente não vai construir nada sólido se a gente fizer um pilar só”, encerra.

Serviço

Para conferir a programação completa da Mostra Tiradentes, acesse o link: https://mostratiradentes.com.br/programacao/

O portal Notícias del-Rei é um dos veículos jornalísticos credenciados oficialmente à cobertura do festival. Acompanhe.

Karine Teles concedeu entrevista coletiva para diferentes veículos de imprensa credenciados na Mostra. O portal Notícias del-Rei é um deles (Foto: Leo Lara / Universo Produção)


Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: Leo Fontes / Universo Produção

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