Arthur Raposo Gomes
Mineira de São João del-Rei e uma das principais articuladoras do cinema brasileiro contemporâneo, Raquel Hallak está à frente da coordenação-geral da Mostra de Cinema de Tiradentes desde sua criação. Em 2026, o evento chega à 29ª edição reafirmando seu papel como espaço de experimentação, debate e leitura crítica do audiovisual nacional.
Com o tema “Soberania Imaginativa”, a Mostra deste ano propõe uma reflexão sobre o poder da criação artística em um cenário marcado por disputas simbólicas, políticas e narrativas. A programação, que começou na última sexta (dia 23) e segue até o próximo sábado (dia 31), ocupa salas de cinema, ruas e praças da cidade histórica, reunindo filmes, debates, intervenções urbanas e atividades artísticas.
Nesta entrevista exclusiva ao Notícias del-Rei, Raquel Hallak, que é formada em Comunicação Social, comenta o conceito que orienta a edição, fala sobre o papel da Mostra no contexto atual do país, a relação do evento com o espaço urbano de Tiradentes, a importância da diversidade de vozes no cinema brasileiro e os desafios de manter um festival independente vivo e relevante após quase três décadas de trajetória.
A seguir, confira a entrevista completa.

Notícias del-Rei (NDR): A 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes adota o conceito de “Soberania Imaginativa”. O que essa ideia quer provocar no público e no próprio cinema brasileiro neste momento histórico?
Raquel Hallak: A ideia de “Soberania Imaginativa” nasce da urgência de reafirmar a imaginação como uma força política, estética e ética. Em um momento histórico marcado por disputas de narrativas, por tentativas de controle simbólico, o cinema brasileiro precisa reivindicar o direito de imaginar outros mundos possíveis. Queremos provocar no público um deslocamento: sair do consumo automático de imagens e entrar em contato com obras que inventam e propõem novas formas de ver e existir. Para o cinema brasileiro, é um chamado à autonomia criativa, à diversidade poética e à liberdade de pensamento.

NDR: Como esse conceito orientou não só a curadoria dos filmes, mas também a programação artística que ocupa ruas e praças da cidade?
Raquel: A “Soberania Imaginativa” atravessa toda a Mostra como um princípio curatorial ampliado. Na seleção de filmes, buscamos apresentar um recorte da produção atual no país, que experimentam linguagens e que afirmam perspectivas singulares sobre o Brasil. Já na programação artística, a ideia é expandir o cinema para além da sala escura, ocupando ruas, praças e espaços de convivência com ações que dialogam diretamente com o território e com as pessoas. A cidade se torna um espaço de fabulação coletiva, onde arte e vida se misturam.
NDR: Em um contexto de disputas simbólicas e políticas no Brasil, qual o papel que a Mostra busca assumir ao defender a imaginação como território de soberania?
Raquel: A Mostra de Tiradentes entende que não existe neutralidade no campo cultural. Defender a imaginação como território de soberania é afirmar que a criação artística é um espaço de resistência, de elaboração crítica e de reinvenção do comum. Nosso papel é criar um ambiente onde o pensamento seja livre, onde as contradições possam aparecer e onde o cinema funcione como ferramenta de escuta, confronto e transformação.
NDR: Shows, cortejos e intervenções urbanas transformam Tiradentes durante o evento. Como essa ocupação do espaço público dialoga com a identidade da cidade?
Raquel: Tiradentes é uma cidade marcada pela história, pela memória e pela preservação, mas também por uma forte dimensão simbólica. Ao ocupar o espaço público com arte, não estamos apagando essa identidade, mas dialogando com ela. As intervenções criam camadas contemporâneas sobre o patrimônio, ativando a cidade como organismo vivo. É um encontro entre tradição e experimentação, que respeita o território e, ao mesmo tempo, o reinventa.
NDR: Que transformações você percebe em Tiradentes antes, durante e após a Mostra, do ponto de vista cultural e simbólico?
Raquel: Durante a Mostra, Tiradentes se transforma em um grande espaço de encontro, reflexão e efervescência cultural. Há uma circulação intensa de ideias, afetos e pessoas. Antes e depois, ficam marcas menos visíveis, mas muito profundas: a ampliação do repertório cultural, o fortalecimento da cidade como polo de criação e difusão e o sentimento de pertencimento a um projeto cultural coletivo. A Mostra cria memória e continuidade. Tem resultados e legado.

NDR: Qual a importância de abrir espaço para vozes minorizadas dentro de um festival que é referência nacional do cinema brasileiro?
Raquel: Abrir espaço para vozes minorizadas faz parte do propósito do evento, e também uma escolha curatorial e um compromisso político e ético. Um festival que se propõe a pensar o cinema brasileiro precisa refletir a diversidade real do país. Essas vozes trazem outras experiências, outras narrativas e outras formas de imaginar o mundo. Sem elas, o cinema se empobrece e se distancia da complexidade do Brasil.
NDR: A atriz e diretora Karine Teles é a homenageada desta edição. O que a trajetória dela representa para o cinema brasileiro contemporâneo?
Raquel: Karine Teles representa uma das figuras centrais do cinema brasileiro contemporâneo. Uma artista conectada com o presente, com grande rigor criativo e uma sensibilidade rara. Sua trajetória é marcada pela coragem de transitar entre diferentes funções, linguagens e formatos, sempre com um olhar atento às relações humanas e às contradições do cotidiano. Ela simboliza um cinema autoral, potente e comprometido com a invenção, ao mesmo tempo, em que também atua em produções comerciais de grande alcance, na TV e no streaming.

NDR: Após 29 edições, quais são hoje os principais desafios para manter a Mostra de Cinema de Tiradentes viva, relevante e inovadora?
Raquel: O principal desafio é continuar se reinventando sem perder a coerência e identidade do projeto. Isso envolve enfrentar questões estruturais, como financiamento e políticas públicas, mas também desafios simbólicos: acompanhar as transformações do cinema, das tecnologias e das formas de circulação das imagens. Manter a escuta atenta ao novo, sem abrir mão da reflexão crítica, é fundamental.
NDR: O que você enxerga como tendências do cinema brasileiro a partir do que chega à Mostra?
Raquel: Percebemos um cinema cada vez mais diverso em termos de linguagem, origem e temática. Há uma forte presença de obras que experimentam novas narrativas, que misturam documental e ficcional, que partem de experiências pessoais para pensar questões coletivas. Também vemos um cinema atento às urgências do presente, mas que não abre mão da invenção estética. Isso nos mostra que o cinema brasileiro segue vivo, inquieto e imaginativo.

Serviço
Para conferir a programação completa da Mostra Tiradentes, acesse o link: https://mostratiradentes.com.br/programacao/
O portal Notícias del-Rei é um dos veículos jornalísticos credenciados oficialmente à cobertura do festival. Acompanhe.
Imagem de destaque: Leo Fontes / Universo Produção
