Redação
As denúncias envolvendo a direção da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São João del-Rei ultrapassaram o limite de um caso individual e passaram a expor um problema de dimensão institucional na principal porta de urgência do município. O episódio veio a público após uma médica da unidade registrar boletim de ocorrência relatando assédio sexual e ameaças. A partir daí, o caso ganhou rápida repercussão nas redes sociais, na imprensa estadual e entre profissionais da saúde.
Após a denúncia inicial, novos elementos passaram a compor o cenário. Um grupo de cerca de 30 médicos formalizou um ofício relatando um ambiente de trabalho marcado por condutas consideradas abusivas, humilhantes e incompatíveis com o exercício da função pública.
Diante da pressão pública, o Executivo municipal determinou o afastamento do então diretor da UPA e instaurou uma sindicância administrativa para apuração dos fatos. Paralelamente, a Polícia Civil confirmou a abertura de investigação.
O episódio também alcançou o campo político, mesmo durante o recesso legislativo local, com manifestações de vereadores e cobranças por transparência, investigação do que foi denunciado e proteção às vítimas.
Em paralelo, o acusado se pronunciou publicamente antes do afastamento, negando irregularidades e atribuindo as denúncias a supostas retaliações relacionadas à sua atuação na gestão da unidade.
A seguir, o Notícias del-Rei organiza os principais desdobramentos do caso até o momento, reunindo o que foi denunciado, como o Poder Público reagiu e quais são os próximos passos previstos.
Relembre o caso
A denúncia veio a público na última semana. O caso envolvendo o diretor da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São João del-Rei ganhou novos desdobramentos após a circulação de um vídeo que reforça as denúncias de assédio sexual e moral.
As imagens mostram a médica apontada como vítima sendo constrangida enquanto buscava um colega de trabalho para tratar de uma situação clínica. No registro, o então diretor faz comentários de cunho sexual e humilhante.
De acordo com o boletim de ocorrência, a profissional afirma que os episódios não teriam sido isolados. Ela relata a existência de outros registros em vídeo, além de testemunhas, que indicariam a recorrência das condutas ao longo do tempo.
Repercussão no Legislativo
Em São João del-Rei, a Câmara Municipal segue em recesso legislativo até o fim do mês de janeiro. A primeira reunião ordinária de 2026 está prevista para o dia 2 de fevereiro. Ainda assim, alguns vereadores se manifestaram publicamente sobre o caso.
Pelas redes sociais, o vereador Gustavo Acácio (Podemos), responsável por tornar a denúncia pública no dia 16 de janeiro, escreveu: “trata-se de uma acusação muito séria. E, justamente por isso, exige apuração rigorosa, transparência e responsabilidade”.
“A denúncia feita por uma médica da UPA evidencia uma realidade ainda comum: mulheres precisam se expor e enfrentar descredibilização para que suas denúncias tenham os devidos encaminhamentos”, avaliou a vereadora Cassi Pinheiro (PT).
A vereadora Sinara Campos (PV) afirmou que “meu compromisso é com quem sofre, com quem tem medo e com quem precisa ser ouvida”. Ela também criticou a postura institucional adotada até o momento: “não dá pra tratar caso de assédio só com uma nota, um post, (no Instagram) da prefeitura”.
O vereador Luís Felipe Maciel (PRD) também se somou às cobranças por providências: “investigação e providências já!”.
Com a repercussão do caso na imprensa estadual, o vereador de Divinópolis, Vitor Costa (PT), também comentou o episódio: “esse espaço que deveria ser de cuidado acabou virando de medo”.
Em referência a outro episódio ocorrido no programa de televisão, ele acrescentou: “tá no BBB, tá dentro da UPA de São João del-Rei, tá em todo lugar. Nós precisamos falar sobre assédio sexual […]”.
Grupo de médicos amplia denúncias contra direção da UPA
Além da denúncia individual, um grupo de cerca de 30 médicos que atuam na UPA de São João del-Rei divulgou um ofício classificando como “gravíssimas e inaceitáveis” as condutas atribuídas ao diretor da unidade.
No documento, ao qual outros veículos também tiveram acesso, os profissionais relatam um ambiente de trabalho marcado por exposições vexatórias e humilhantes, ameaças, imposição de apelidos pejorativos (inclusive de cunho xenófobo, preconceituoso e homofóbico) além de relatos recentes de assédio sexual.
Os médicos afirmam agir de forma coletiva diante da gravidade das situações narradas e cobram providências do poder público municipal.
A vereadora Sinara, que preside a Comissão de Saúde na Câmara Municipal, divulgou, nesta segunda (dia 19), que fez um pedido para abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigação do que foi relatado.
O que diz a Prefeitura
No sábado (dia 17), a Prefeitura de São João del-Rei publicou a portaria nº 22.346/2026, que determina a abertura de sindicância administrativa para apuração dos fatos denunciados. O texto prevê que a comissão responsável terá prazo de 60 dias, prorrogáveis por igual período, para análise e conclusão do procedimento. O diretor da UPA foi afastado do cargo pelo prazo inicial de até 60 dias.
Segundo nota oficial, a medida tem caráter “administrativo e preventivo” e foi adotada “após a divulgação de denúncias nas redes sociais”.
De acordo com o Executivo municipal, “as apurações estão em andamento”, dentro dos trâmites legais. A administração afirma que “não compactua com práticas de assédio ou qualquer conduta que viole a dignidade, os direitos e os princípios da administração pública” e diz que seguirá acompanhando o caso em colaboração com as autoridades competentes.
O que diz o acusado
Pelas redes sociais, circulou um vídeo no qual o enfermeiro e então diretor da Unidade de Pronto Atendimento, Alan Barros, se pronunciou antes de ser oficialmente afastado, ainda na sexta-feira (dia 16). O conteúdo foi divulgado por páginas de notícias da cidade.
“Acredito estar sofrendo esse tipo de prejuízo e retaliação em detrimento da minha firme postura no trato do meu trabalho. Na condição em que estou, sou obrigado a tomar decisões que contrariam interesses de algumas pessoas, de alguns grupos, e por isso acabo ganhando inimigos, pessoas que querem cessar com esse trabalho, que é um trabalho de qualidade”, afirmou.
Ele também disse acreditar na Justiça e defendeu o impacto positivo da gestão que conduzia à frente da Unidade de Pronto Atendimento junto à comunidade são-joanense.
O espaço segue aberto.
Imagem de destaque: reprodução / GoogleMaps
Edição: Arthur Raposo Gomes
