ARTIGO DE OPINIÃO: ENTRE O BBB E A POLÍTICA – COMO O ESPETÁCULO PASSOU A MEDIAR O DEBATE PÚBLICO

Arthur Raposo Gomes

O movimento costuma ser previsível quando uma nova edição do “Big Brother Brasil” começa a ser exibida: as redes sociais digitais se agitam, surgem análises rápidas, aumentam as menções (explícitas ou implícitas) ao programa, participantes são categorizados como personagens, conflitos televisionados ganham narrativa própria e organizam a atenção pública. O programa funciona porque entende o tempo das mídias, os arquétipos da vida em sociedade e a lógica do engajamento. Tem potencial sim de colocar em pauta certas discussões, mas ainda é promovido, sobretudo, pelo viés do entretenimento.

O campo político, no entanto, passou a operar, já há algum tempo, com ferramentas semelhantes. A política brasileira já não se apresenta apenas como disputa de projetos ou decisões institucionais. Ela se tornou, em grande medida, um espetáculo permanente. Gestos pensados para a câmera do celular (próprio ou da assessoria), frases de efeito, embates encenados. O plenário, muitas vezes, funciona mais como palco do que como espaço deliberativo. A lógica do espetáculo não substitui a política, mas passou a mediá-la.

Isso não acontece por acaso. A lógica da visibilidade mudou. A política aprendeu a operar dentro do ecossistema digital, onde atenção vale poder. E, nesse ambiente, gestos frequentemente rendem mais engajamento do que decisões e proposições. A performance passa a disputar espaço com o conteúdo real.

Enquanto profissional e pesquisador da Comunicação Política, é necessário destacar: o risco não está nos arquétipos em si, mas em confundir cena com decisão em si. Enquanto o debate público se concentra no embate mais visível, decisões estruturais seguem acontecendo fora do foco: são votos, emendas, alianças e prioridades orçamentárias que, em muitos momentos, passaram despercebidos pelos olhares da sociedade brasileira.

A diferença entre o reality show e a política é simples. No “BBB”, enquanto um programa de televisão que é, a narrativa se encerra ao fim da temporada. Na política, o que foi decidido permanece. Quando um(a) parlamentar vota, apresenta uma emenda ou se omite diante de uma pauta decisiva, as consequências não se resolvem em uma noite. Elas se estendem no orçamento público, nas políticas sociais, na vida concreta das pessoas. Não há “edição final” que dê fim imediato o que foi decidido.

Entender a política hoje exige aceitar que o espetáculo existe e também saber atravessá-lo. Acompanhar menos a cena isolada e mais o que fica depois que o vídeo para de circular. Porque, no fim, o espetáculo passa. As decisões continuam produzindo efeitos.


Imagem de destaque: criação feita via-ChatGPT pelo Notícias del-Rei.

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Texto inicialmente e também publicado no portal “Barbacena Online”.

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