Ana Cláudia Almeida e Laura Brêtas
A história do Grêmio Recreativo Escola de Samba Bate-Paus é contada por vozes que atravessam o tempo e sustentam o peso da tradição. No bairro Senhor dos Montes, onde a escola nasceu e cresceu, o carnaval é herança familiar, identidade coletiva e força comunitária.
Entre os muitos nomes que ajudam a manter essa memória viva, dois personagens se destacam por sua forte ligação com a agremiação. De gerações diferentes, mas conectados pelo sangue e pelo amor à Bate-Paus, Jacy de Andrade, o “Beleléu”, e Manoel Henrique de Andrade compartilham, nesta reportagem exclusiva, histórias que revelam o passado, o presente e os desafios do futuro da escola de samba.
- “Já fui solteiro, hoje sou casado. Já fui espírita, hoje sou cristão católico. Já fui analfabeto, hoje sou alfabetizado. Ao longo da minha história, a única coisa que não mudou até hoje é que sou Bate Paus” – Manoel de Andrade
- “A minha vontade, se estiver com saúde, é de desfilar todos os anos. De preferência, andando. Andando sempre com a mesma vontade, porque a Bate Paus é o meu orgulho” – Jacy de Andrade (Beleléu)
Beleléu: o coração e alma da Bate-Paus
Jacy de Andrade, reverenciado por todos como “Beleléu”, é o coração pulsante da GRES Bate-Paus. Aos 90 anos, ele é uma das figuras mais queridas da comunidade do Senhor dos Montes e símbolo vivo da história da agremiação.
Amante do carnaval e memória viva do samba são-joanense, ele começou a desfilar em 1947, aos 12 anos de idade. Naquela época, a Bate-Paus ainda era um pequeno bloco, reunido pela paixão à folia e à cultura popular.
Outros tempos, outras rodas
Beleléu acompanhou de perto as transformações das famosas rodas de bate-paus características da escola. A Bate-Paus, conforme ele recorda, era apenas um bloco que saía nas ruas com uma equipe de 20 a 30 pessoas. Carregando sanfona, violão e cavaquinho, esses eram os conhecidos batedores de pau. Segundo o então presidente de honra e baluarte da agremiação, os primeiros desfiles eram também marcados por algumas informalidades e situações que hoje seriam impensáveis.
“O pessoal batia com muita força. Sempre machucava alguém – testa, costas, rosto. Às vezes, dois ou três se feriam no mesmo dia. Muita gente saía depois de beber, e isso dificultava o controle da atividade”, relata.
Com o passar dos anos, a escola adotou regras mais rígidas para garantir a segurança dos integrantes. “Hoje em dia, quem bebe não participa! A gente entendeu que precisava mudar para manter esta tradição leve e divertida”, afirma.

Beleléu acrescenta que uma mudança de comportamento também pode ser notada entre os mais jovens. Ele menciona que antes era comum que as pessoas se oferecessem para participar, porém, atualmente, a escola precisa insistir no convite para haver a formação de grupos: “o interesse diminuiu. Temos que convidar várias vezes. A empolgação já não é a mesma de antigamente”.
Carnaval: família e memórias
Com simplicidade e carinho, Beleléu recebeu e tratou a equipe desta reportagem como se fosse parte da família. Durante a entrevista, abordou suas memórias, mostrou fotografias antigas e descreveu, com detalhes e emoção, momentos marcantes de sua trajetória no carnaval. Entre uma lembrança e outra, surgiram histórias engraçadas, que envolvem desde as confusões da folia até encontros inesperados, como o com o ex-presidente Tancredo Neves. Um entusiasmo é visível em cada gesto, e o brilho no olhar deixa claro que a Bate Paus é a sua família.
Ao lado de filhos, netos e bisnetos – muitos dos quais também integram a escola – Beleléu é referência de dedicação, alegria e resistência. Ele é admirado: ele é a própria Bate-Paus.
Sua fala mansa e cheia de afeto carrega o peso e a beleza de quem viveu nove décadas acompanhando a evolução de um bloco de bairro até uma das mais tradicionais agremiações da cidade. Segundo ele, seu grande medo segue sendo a escola deixar de representar o que é atualmente, já que ele próprio não tem mais condições de ajudar como gostaria.
“Sinceramente, na idade que eu estou, se for para me mexer e ajudar, não tenho condições. Mas ponho força nos meus sobrinhos, filhos, netos e bisnetos, porque não é fácil não, é trabalhoso, é responsabilidade”, comenta.
Vendo o bairro se transformar, a escola crescer e a sua história ser costurada ao som da bateria da Bate-Paus, Beleléu é puro orgulho: “a escola é uma coisa muito importante. Meu pai foi um dos fundadores e eu dei continuidade para não acabar. Quantas escolas aí já acabaram e ela não, a Bate Paus sempre continua”.

Manoel e suas raízes verde e rosa
Neto de José Pereira, fundador da GRES Bate-Paus, Manoel Henrique de Andrade é mais um personagem ativo na história da quase centenária agremiação. Também nascido e criado no bairro Senhor dos Montes, junto de mais três irmãos, ele cresceu sob as paixões e ensinamentos dos avós que moravam ao lado. Além de valores religiosos e morais adotados, um modo de vida pautado no amor pelo carnaval se destaca na herança familiar.
Manoel conta que representar a Bate-Paus é sempre uma forma de se conectar e sentir uma presença forte de seu falecido avô: “para mim, hoje, participar da Bate Paus, desfilar e ajudar na manutenção da escola, é a maneira que eu consigo manter a memória do meu avô mais viva e perto de mim”.

Participante dos desfiles desde os 5 anos de idade, o servidor público, atualmente com 45, enxerga sua jornada e a história da agremiação bem entrelaçadas. Ao longo dos anos, motivado pelo orgulho do legado da família, Manoel se desafiou na missão de honrar e dar continuidade ao desenvolvimento da Bate-Paus.
“Já estive como mestre de bateria, vice-presidente, secretário, enfim, vários cargos já nas diretorias. Nunca fui presidente, mas sou colaborador no barracão de alegorias também. A gente vai fazendo de tudo um pouco para contribuir”, relata.
Hoje, então membro do coro de intérpretes, além da experiência inigualável do desfile, ele menciona também a sua oportunidade de demonstrar o esforço conjunto dos moradores e torcedores da Bate-Paus: “com as nossas vozes, a gente leva a apresentação do samba enredo e a força da escola. A gente representa o canto da comunidade. Então, isso é uma responsabilidade muito grande, mas, acima de tudo, é um prazer muito grande”.
Influências
Compreendendo o carnaval como uma festa democrática e o samba como um meio popular de lazer e celebração, a Bate-Paus atinge seus 92 anos tendo provocado quebra de paradigmas e transformações sociais. Baseada em um bairro periférico da cidade movimentado, em grande parte, por pessoas de grupos minoritários, a agremiação influencia a vida de muitos que a consideram um lar e/ou uma escola. Entre alguns princípios ensinados e inseridos na construção de sua identidade cultural forte, além do respeito à tradição e da valorização artística, estão a união e a cooperação.
Seja no cotidiano do “barracão” ou nos eventos para arrecadação de fundos, o constante incentivo à troca de conhecimentos e experiências promove um sentimento potente de comunidade e pertencimento.
Segundo Manoel, para os que têm “raízes verde e rosa e os pés fincados na comunidade”, uma evolução mútua é algo notório e satisfatório em relação à Bate-Paus e ao Senhor dos Montes.
“É interessante notar que o bairro, aos poucos, foi tomando um formato de bairro realmente. Com uma unidade de saúde, com igrejas de diversas religiões, pontos comerciais e escola funcionando. Sabemos que ainda há coisas para melhorar, mas a melhora que aconteceu na comunidade, a gente consegue observar também, nitidamente, na organização e crescimento da escola”, diz.
Introduzido no meio carnavalesco há 40 anos, diversas fases da Bate-Paus foram presenciadas pelo são-joanense amante de rodas de samba. Compartilhando uma inovação proposta anos atrás pela agremiação, referente às alas coreografadas na avenida, ele menciona a obtenção de novas perspectivas do carnaval através do crescente envolvimento de pessoas de fora da comunidade e, paralelamente, da chegada de novos moradores no bairro: “assim como as portas da comunidade se abriram, aconteceu com a escola. A gente percebe que ela vai mudando os seus moldes à medida que vai passando o tempo. Talvez com novas ideias e pessoas com conhecimentos diferentes, tudo acaba interferindo. É muito positivo a gente ver isso acontecendo”.
Série especial
O portal Notícias del-Rei está com uma série especial de matérias jornalísticas sobre a Bate-Paus, a escola de samba mais antiga em atividade na cidade.
Supervisão: Márcia Eliane Rosa
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: arquivo pessoal
