Ana Clara Messias, Jakeline Azevedo, Lívia Godoi,
Vincent Otoni e Luiz Ademir de Oliveira
O voto no Campo das Vertentes revela uma contradição que se repete a cada eleição: a região que deu maioria a Lula em 2022 também consagrou candidatos de direita e do Centrão nas urnas legislativas. A aparente falta de coerência ideológica entre o voto presidencial e o parlamentar expressa, segundo o jornalista e cientista político Fernando de Resende Chaves, a própria identidade mineira – diversa, complexa e marcada pela convivência entre tradição e mudança. Entre o conservadorismo das cidades e a força progressista de parte do eleitorado, o Campo das Vertentes se consolida como um espelho em escala regional das disputas que definem o cenário político de Minas Gerais e do Brasil.
Em 2022, por exemplo, Lula venceu com vantagem expressiva nas cidades da microrregião, mas, nas eleições para o Congresso Nacional, os mais votados foram candidatos ligados à direita e ao Centrão, muitos deles críticos ao governo petista e a pautas progressistas. Um exemplo é o deputado Dr. Frederico (PRD), que tem na região um de seus principais redutos eleitorais – ele foi o mais votado em 14 das 15 cidades, perdendo apenas em Santana do Garambéu, município mais próximo da influência política de Juiz de Fora. No total, o parlamentar somou 37.294 votos, sinalizando força na região durante aquele pleito.
Para Fernando Chaves, atualmente professor da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), o comportamento eleitoral da microrregião reflete a complexidade sociocultural do Campo das Vertentes e a pluralidade de identidades políticas de Minas Gerais.

“Por um lado, a região do Campo das Vertentes pode ser considerada, em uma visão mais geral, uma região de perfil conservador – especialmente quando observamos a forte presença da religiosidade na vida comunitária e os padrões tradicionais que marcam as relações sociais e políticas, fortemente ancoradas na tradição familiar e nos costumes locais”, explica.
“Por outro lado, se compararmos o Campo das Vertentes com outras regiões de Minas Gerais e do Brasil – sobretudo as situadas mais ao sul e ao oeste – percebemos que essa região (incluindo, em certa medida, a Zona da Mata e áreas adjacentes) ocupa um papel singular: o de uma espécie de divisor de águas, uma zona de transição entre dois Brasis. De um lado, um Brasil mais progressista ao norte; de outro, um Brasil mais conservador ao sul, como se observa nas regiões do Sul e do Sudoeste mineiro”, complementa.
Fernando Chaves explica que as cidades do Campo das Vertentes formam uma espécie de faixa intermediária entre territórios mais conservadores e outros mais progressistas – tanto no contexto mineiro quanto no nacional. Essa característica se reflete especialmente nas eleições presidenciais, em que Minas Gerais é vista como o estado capaz de definir o resultado do pleito.
Em 2022, por exemplo, Lula obteve 6.190.960 votos (50,20%) no segundo turno, enquanto Bolsonaro somou 6.141.310 (49,80%), uma diferença mínima. O padrão mineiro praticamente espelhou o resultado nacional, em que o petista alcançou 50,90% dos votos contra 49,10% do candidato do PL. Para o cientista político, essa semelhança se explica pela diversidade regional do estado – com áreas que se aproximam culturalmente do Nordeste e outras que mantêm vínculos históricos e econômicos com o Sul e com São Paulo.

“Se Minas Gerais, em sua totalidade, costuma ser descrita como uma síntese do Brasil – um estado que reflete suas contradições e complexidades -, o Campo das Vertentes é o espelho dessa dualidade em escala regional: uma região em que a tradição e a religiosidade convivem com demandas sociais mais progressistas e uma sensibilidade histórica e cultural que a distingue dentro do estado”, explica Fernando.
A partir dessa análise, Fernando avalia que o comportamento do eleitorado tende a se repetir em 2026, com a manutenção de uma disputa presidencial polarizada e um quadro heterogêneo nas demais esferas.
“É provável que Lula mantenha a vantagem regional, mas os candidatos ligados à direita continuarão dominando as eleições legislativas, devido à força das lideranças locais e à influência dos recursos partidários, como as emendas parlamentares”, reflete.
Disputa pelo Governo de Minas
Na disputa para o Governo de Minas em 2022, a tendência se inverteu em relação à eleição presidencial. Enquanto Lula (PT) foi o mais votado na maioria das cidades da microrregião, o governador Romeu Zema (NOVO), aliado do então candidato à reeleição Jair Bolsonaro, venceu com ampla vantagem na maior parte dos municípios. Novamente, identifica-se uma ambiguidade ideológica ao eleger um candidato de centro-esquerda no pleito presidencial e um candidato de direita para o governo de Minas Gerais.
Em São João del-Rei, principal colégio eleitoral da microrregião, Zema conquistou 26.765 votos (56,83%), contra 14.908 (31,66%) de Alexandre Kalil (PSD), candidato apoiado por Lula.
O resultado repetiu-se em quase todas as demais cidades: Tiradentes (56,41% x 34,56%), Lagoa Dourada (59,22% x 35,38%), São Tiago (55,62% x 35,86%), Prados (51,64% x 43,47%) e Resende Costa (53,61% x 40,25%) também registraram vitórias expressivas do então candidato à reeleição ao Poder Executivo estadual.
Edição: Arthur Raposo Gomes
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