Arthur Raposo Gomes
Dia de Finados nunca foi sobre tristeza. É sobre silêncio. Um silêncio que não dói, mas pesa. Que lembra que o tempo anda, mesmo quando a gente não quer.
As cidades desaceleram, as vozes baixam, e por um instante parece que o mundo inteiro entende o que significa ausência. Não é só quem se foi – é o que ficou junto: o cheiro de café de manhã, uma risada que ecoa sem corpo, um conselho que ainda faz sentido.
A morte é um jeito áspero de lembrar que nada é garantido. Mas, paradoxalmente, também é o que dá forma à vida. A urgência, a escolha, o cuidado – tudo isso nasce do que sabemos ser finito.
No Dia de Finados, há quem leve flores, há quem evite ir. Cada um lida à sua maneira. O cemitério, em si, é só cenário: o luto mora em outros lugares – nas lembranças que voltam de repente, nos cheiros que atravessam o tempo, nas mensagens que ficaram sem resposta.
E, ainda assim, há algo de bonito nesse ritual. É como se, por um dia, o mundo inteiro parasse para lembrar que viver é também cuidar da memória. Que os que partiram continuam, de algum modo, nos gestos, nas escolhas, nas palavras que herdamos sem perceber.
O Dia de Finados é sobre o tempo – o que passou e o que ainda resta. Sobre o que se perdeu e o que, de alguma forma, permanece. E sobre o fato de que, no fim, todos somos parte da mesma travessia: tentando deixar algo bom antes de ir.
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