Vitor Ramiro, Sarah Rezende, Dezuite Alaniz,
Pedro Oliveira, Rodrigo Almeida e Gabriella Canuto
As ruas de pedra-sabão não foram feitas para salto alto – talvez por isso Danielly Cassiano estivesse de tênis. Foi durante a caminhada pelo interior do Campus Santo Antônio que o desconforto alheio com sua forma de se vestir virou assunto. Danielly cresceu em uma família católica tradicional, onde serviu como coroinha durante anos. No entanto, mesmo cercada pelos ritos da igreja, carregava um incômodo. “Eu sempre me senti diferente entre os outros coroinhas, como se estivesse performando um papel que não era meu”, relata.
A sensação de inadequação a acompanhava, mas na época, faltavam-lhe palavras para nomear o que sentia. Foi apenas aos 20 anos, após entrar no mercado de trabalho e iniciar terapia, que compreendeu sua identidade: não era um homem gay que gostava de roupas femininas, mas uma mulher trans travesti. “Foi como se eu finalmente encontrasse a chave para entender minha própria história”, reflete. Sua transição, iniciada em 2023 com mudanças nas vestimentas, tornou-se um ato político de autoafirmação – uma forma de honrar as travestis que pavimentaram o caminho antes dela.
Ao trocar de vestido, colocar seu salto alto, retocar sua maquiagem e se olhar mais uma vez para o espelho, Danielly ainda hesitava antes de sair de casa vestida assim. A lembrança de comentários transfóbicos – como o de uma vizinha que, certa vez, perguntou se ela “não era um homem” – continuava presente.
A história de Danielly ajuda a revelar as complexidades de existir e resistir sendo uma mulher trans em uma cidade como São João del-Rei. Ela vive o início de sua transição com coragem e consciência política, consciente de que sua presença já é, por si só, um desafio às estruturas que tentam inviabilizá-la.
Ela ressalta que, historicamente, o termo “travesti” foi empregado de forma pejorativa, associado à marginalização e à prostituição. Ao abraçar essa palavra, Danielly e outras mulheres buscam ressignificá-la, transformando-a em um símbolo de resistência e luta. É uma forma de honrar a memória e a trajetória daquelas que vieram antes, que enfrentaram o preconceito e pavimentaram o caminho para a existência e afirmação das identidades trans e travestis hoje. Essa escolha de identidade é, para ela, um grito de ancestralidade e pertencimento.
Entre o cuidado e a omissão
Filha de uma família católica tradicional, criada entre os corredores da igreja e as regras de uma identidade que nunca lhe coube, Danielly hoje ocupa outros espaços – e cria novos, para si e para outras pessoas. Enquanto a cidade falha em oferecer políticas públicas para a população trans, Danielly encontra no Senhor dos Montes um contraponto de solidariedade. Como integrante do projeto social Construindo o Amanhã, ela ajuda a oferecer educação, cultura e lazer para crianças do bairro, incluindo oficinas de capoeira e planos para aulas de dança.
A iniciativa, que conta com o apoio eventual de vereadores e universitários, já realizou gincanas e ofereceu assistência jurídica para mães solo. “Aqui, as senhoras do bairro preparam almoço para as crianças, os comerciantes doam materiais. É a comunidade fazendo o que o município não faz”, explica.
O projeto social, mantido a custo de doações e voluntariado, expõe justamente o abismo entre a capacidade de organização popular e a omissão do poder público. A realidade do bairro prova que a inclusão é possível, mas também questiona: por que ela precisa ser construída contra tudo, e não com o apoio de quem deveria garantir direitos?
Esse acolhimento local, porém, revela uma contradição dolorosa. Se na comunidade em que habita Danielly é respeitada como gestora e vizinha, na cidade ela já foi seguida por um homem que gritava “vira homem” em plena rua.
Sobreviver, não viver
A transição de Danielly se impôs a um município que, apesar de sua beleza histórica, ainda é marcado pela desinformação e pelo preconceito. Ela descreve os obstáculos diários: “Em São João, as pessoas não têm muito respeito ou conhecimento sobre essa parte [de ser trans].” O assédio é corriqueiro: “no dia-a-dia a gente já sente olhares, assobios, chamados, assim, sabe? Achando que a gente vai se oferecer ou vai acabar acontecendo ali alguma coisa, achando que a gente é fácil”.
A dor se aprofunda nos relacionamentos afetivos. Danielly é categórica: o amor ainda não é acessível para mulheres trans. “Eu vejo que todos os homens que eu fiquei até hoje, eles não têm um olhar de desejo pra gente, só têm olhares sexuais, só têm olhares de fetiche com o nosso corpo. E isso é muito dolorido, porque a gente sente que o amor não é uma coisa acessível”. Essa invisibilidade afetiva, solidão estrutural, é uma das violências mais silenciosas e profundas que ela enfrenta.
A experiência de Danielly ilustra os obstáculos cotidianos enfrentados pela comunidade trans na cidade. Em consultas médicas, ela já se viu submetida a questionamentos invasivos sobre sua identidade, como se sua condição exigisse justificativas em vez de acolhimento. A falta de preparo dos profissionais de saúde e a ausência de ambulatórios especializados levam muitas pessoas trans a abandonar tratamentos ou recorrer à automedicação, agravando riscos já elevados pela exclusão social.
Para Danielly e tantas outras, o sistema parece operar sob uma lógica perversa: antes de receber cuidados, precisam provar que merecem ser tratadas como seres humanos.
Para além das ruas de pedra-sabão
Apesar dos desafios, Danielly irradia um senso de propósito. Ela reflete sobre ter nascido em São João del-Rei: “talvez eu tenha nascido nessa cidade pra poder mudar o pensamento das pessoas, pra gente poder fazer uma diferença aqui, mostrar que a gente existe”. Ela sonha em ocupar mais espaços, talvez até na política, para fortalecer a presença trans na sociedade.
A fé é um pilar central na vida de Danielly. Apesar de ter crescido ouvindo na família que sua identidade era um “atentado contra Deus”, ela mantém uma convicção inabalável de que sua existência, tal como é, é querida por uma força maior. Danielly expressa que, se tivesse “nascido errado”, essa força não a teria permitido viver e ser quem ela é hoje. Ela observa os progressos no catolicismo, especialmente com os avanços recentes que indicam maior acolhimento, mas não deixa de criticar a intransigência de certas vertentes evangélicas que insistem em tentar “mudar aquilo que ela é”, desrespeitando sua essência.
As inspirações de Danielly são a prova de que a resistência se nutre de exemplos. Ela admira Nandaa Evelyn, a primeira princesa trans do carnaval são-joanense, e sonha em um dia ser rainha de bateria. Liniker a ensinou que o amor pode ser sentido e ansiado, mesmo em meio à dificuldade. Pepita é um modelo de superação, fugindo das estatísticas de expectativa de vida e mostrando que uma mulher trans pode ser mãe. E, na política, figuras como Erika Hilton, Duda Salabert e Benny Briolly são “exemplos de força”, lutando contra o conservadorismo e garantindo direitos.
No fim, Danielly calçou o salto alto, ajeitou o vestido e decidiu caminhar até sua casa dessa forma. Mesmo com os receios que ainda carrega ao circular pela cidade, escolheu sair do jeito que gosta de se ver.
Os saltos, que no começo pareciam inadequados para as ruas de pedra-sabão, naquele momento passaram a ser um símbolo da presença dela na cidade.
Imagem de destaque: Danielly em entrevista para o Projeto Transbordar. / Foto: Vitor Ramiro
Supervisão: Márcia Rosa
Edição: Arthur Raposo Gomes
