Ana Luiza Reis, Érika Franco, Lívia Fernandes,
Giulianna Andrade e Igor Chaves
A Serra do Lenheiro representa um dos mais importantes patrimônios ambientais da região. Com uma grande biodiversidade, o território abriga diversas espécies nativas de fauna e flora do cerrado mineiro, sendo considerado um importante remanescente ecológico em meio à urbanização. No entanto, a pressão do crescimento urbano, a prática irregular de atividades esportivas e os frequentes focos de incêndio ameaçam diretamente sua conservação.
No vídeo a seguir, nossa equipe de reportagem reúne as principais denúncias e alertas feitos por guias turísticos, historiadores, pesquisadores e brigadistas que atuam diretamente na serra.
A atuação independente de brigadistas voluntários e de grupos comunitários tem sido fundamental para frear os avanços da degradação ambiental e manter áreas protegidas. Eles realizam monitoramentos constantes, ações educativas e manejos preventivos, mesmo com recursos limitados.
A preservação da serra não diz respeito apenas à natureza intocada. Trata-se da manutenção de um ecossistema que impacta diretamente na qualidade de vida da cidade e na sobrevivência de saberes, práticas e modos de existência ligados ao território.
Além disso, quem tem contato com o espaço alerta para a necessidade de políticas públicas mais eficazes, que ampliem o monitoramento, incentivem a educação ambiental e envolvam a comunidade local no cuidado com esse patrimônio natural.

De acordo com o brigadista Hélio Carvalho, grande parte dos incêndios na serra são criminosos e, lamentavelmente, degradam o ambiente e prejudicam os moradores das proximidades. A população do bairro Águas Gerais é abastecida pela água canalizada de uma mina, e quando há queimadas os canos são danificados pelo fogo e comprometem o abastecimento local. Na percepção do brigadista há uma recorrência anual desses incêndios nesta região.
Hélio atua na serra há 13 anos. Estar na linha de frente no combate aos incêndios é um trabalho árduo e perigoso, mas ele considera prazeroso saber que está contribuindo para a conservação do local.
“A gente trabalha não só na linha de frente com os combates, mas também com atividades com as crianças, para tentar disseminar a ideia de preservação, a questão de pertencimento – que eles fazem parte da serra, que dependem dela -, para ver se cria a conscientização”, comenta.

Formada por brigadistas voluntários, a Brigada 1 prepara seus integrantes com teoria e prática para atuar no combate aos incêndios que ocorrem na Serra do Lenheiro. Segundo Felix Hernandez, coordenador da Brigada, é importante não romantizar o combate ao fogo, e sim compreender que a atuação da brigada vai além disso, com um papel fundamental no aumento da educação e consciência ambiental.
“Todo mundo associa que o brigadista obrigatoriamente é combatente de incêndio. E isso também faz parte. Mas a gente não se resume a isso, não. A parte da educação ambiental, campanhas, tem tanta coisa que dá pra fazer”, explica.

Apesar de uma melhora no cenário ambiental da Serra do Lenheiro, com menos focos de incêndio registrados neste ano e uma redução perceptível na quantidade de lixo, a sensação de abandono ainda prevalece.
Para Félix, essas conquistas não são suficientes para mascarar a ausência de cuidado efetivo e constante com a região. “A Serra do Lenheiro está abandonada. E a gente tem que conservar. Ela é nossa.” A fala expressa não apenas um alerta, mas também um chamado à responsabilidade coletiva. Segundo ele, a serra carece de políticas de preservação, educação ambiental contínua e envolvimento mais amplo da comunidade.
O trabalho da brigada voluntária, por mais ativo e engajado que seja, ainda é limitado frente à dimensão dos desafios. “Quanto mais pessoas, mais ideias. A gente quer que todo mundo venha pra somar, pra tentar melhorar essa situação.”
Outro problema citado pelos entrevistados é a prática irregular de motocross na Serra do Lenheiro, esse esporte radical é realizado com motocicletas off-road – motos adaptadas para trilhas e terrenos irregulares. Os praticantes percorrem trilhas em alta velocidade, e isso impacta o ambiente com problemas que podem se tornar irreversíveis com o passar do tempo. Alguns dos impactos são: erosão do solo, danos à vegetação nativa, risco às nascentes, perturbação da fauna e danos a sítios arqueológicos.

O guia turístico Luiz Antônio Miranda também foi incisivo ao falar na necessidade de conscientização da população e dos visitantes, pois a recuperação de um local degradado pode levar séculos. “A população do entorno, muitas vezes, não consegue entender o respeito que a Serra deve ter. E também as pessoas de outras cidades, que por aqui passam devastando – com queimadas, passando com motos -, sabendo que a Serra é muito frágil. Sua composição estrutural é arenítica e quartzítica, e isso pode causar danos que podem levar até séculos para se recompor.”, ressalta.
O brigadista Hélio alerta sobre o futuro da Serra: “Se continuar nesse ritmo, vai acabar. A questão das queimadas, a questão também da prática de esporte, por exemplo, motocross. […] A maioria das ações que são feitas na serra, é através de ONGs, trabalho voluntário. Não tem um trabalho específico do Poder Público, efetivo, de fiscalização. E aí precisa surgir a questão mesmo de estar com nós, fiscalizando e fazendo atuações”.
Essa mobilização mostra que a preservação da serra é também um compromisso coletivo, que exige o engajamento de poder público, iniciativa privada e moradores locais. Preservar a Serra do Lenheiro é um ato de responsabilidade coletiva e uma forma concreta de resistência, como afirma Miranda: “Quando você tem a noção do que gera uma vida, você preserva”.
Foram solicitados esclarecimentos diante dos problemas citados e a ausência de políticas públicas efetivas para preservação da Serra do Lenheiro, a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de São João del-Rei não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.
Série especial
O portal Notícias del-Rei publica a série especial “Serra do Lenheiro: Território, Memória e Vivência”, uma produção dos repórteres Ana Luiza Reis, Érika Franco, Lívia Fernandes, Giulianna Andrade e Igor Chaves, sob supervisão da jornalista Márcia Rosa.
Supervisão: Márcia Rosa
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Igor Chaves
