Ana Luiza Reis, Érika Franco, Lívia Fernandes,
Giulianna Andrade e Igor Chaves
Mais do que um patrimônio natural e histórico, a Serra do Lenheiro é também um lugar de afetos, vivências e tradições que seguem vivos por meio de quem caminha, canta e cuida de suas trilhas. Ela pulsa no cotidiano de pessoas como Manoel Andrade, Teté Santos e Luiz Antônio Miranda, que, com diferentes trajetórias, mantêm uma relação forte com esse território e ajudam a preservar não apenas o espaço físico, mas também sua memória cultural.
Manoel Andrade, nascido e criado em São João del-Rei, sobe a serra desde criança. Hoje, já adulto, é um dos organizadores da tradicional Caminhada da Via Sacra, realizada todos os anos na Semana Santa. O percurso de fé percorre trilhas da serra e resgata uma prática religiosa e comunitária que atravessa gerações. Para ele, o trajeto é mais do que simbólico: é uma forma de reconectar as pessoas com o sagrado e com a própria história da cidade. “ Para mim, é a maior presença da conexão humano divino”, afirma.

Sua relação com a Serra é antiga, e tem um papel relevante na sua vida: “Desde a minha infância eu tenho muito forte na minha memória a participação nesta caminhada, anualmente, junto com avós, tios, com meus pais. E já há mais de 10 anos, viemos à frente da organização”, destaca Manoel.

Ele e Dona Neusa, outra organizadora da caminhada, criaram e denominaram a “Rota da Fé”, trajeto com pontos de parada e sinalização, realizado na Via Sacra, todo ano. O objetivo é subir a serra, em conjunto, em oração e em contato com o lado espiritual. Manoel cita que se sente grato pelo aumento da participação popular, mencionou que esse ano de 2025 foram bastantes rostos novos, e uma quantidade significativa de pessoas. No entanto, revela que a caminhada ainda não é reconhecida o suficiente, por exemplo, nunca esteve na programação oficial da semana santa divulgada pela cidade.

Perguntado quanto a relevância da Serra para o povo, ele afirma: “eu sou nascido de uma comunidade criada ao pé da serra, e me arrisco dizer que São João del-Rei surgiu ao pé da serra. Se não existe a Serra do Lenheiro, não existe São João del-Rei. Salve a Serra do Lenheiro!”, finaliza e complementa Manoel Andrade.
Já Teté Santos carrega a serra em sua arte. Músico, compositor e morador da Rua do Ouro – uma das margens que abraçam a serra -, ele cresceu em contato direto com aquele território. Ainda criança, passava os dias brincando, nadando e explorando as trilhas do Lenheiro, experiência que, com o tempo, se transformou em afeto e inspiração para sua arte.

O músico transforma o sentimento de pertencimento em canções que falam de resistência, preservação e ancestralidade. Em suas letras, a serra é personagem viva, como no mantra: “ A hora do lenheiro chegou. É a hora de preservar memórias esquecidas da Serra do Lenheiro”, a frase resume o tom de urgência e de reverência que marca seu trabalho autoral.

Para Teté, a música tem um poder único de aproximar as pessoas do território: “A música chega rápido, ela chega na emoção das pessoas”. Ele observa que, apesar da serra estar tão ligada a história da cidade, muitos ainda não a conhecem. E é justamente por isso que suas canções se tornam também instrumentos de educação e sensibilização, despertando a curiosidade de quem ouve e provocando um olhar mais atento sobre esse patrimônio natural e histórico.
O músico destaca com emoção o papel grandioso que a serra ocupa em sua trajetória, marcada por admiração e compromisso com a preservação. Mesmo diante das dificuldades enfrentadas, especialmente no que diz respeito às questões ambientais e à urgência por conservação, Teté acredita que o olhar da cidade está mudando, uma vez que, aos poucos, as pessoas estão se interessando mais pelo assunto e conhecendo a serra: “O processo é lento, mas a gente sente que agora a serra está sendo abraçada”.
Morador da Rua do Ouro, ele descreve o vínculo com a serra como algo que atravessa o cotidiano: “Todas as vezes que eu entro na Rua do Ouro e olho para a serra, é um olhar que eu tenho diferente. Então, quando subo a serra, hoje me sinto pertencente a ela”, afirma. Para ele, a serra não é apenas um lugar físico, mas um bem coletivo, de onde emana beleza, história e sentido: “a serra é importante porque tudo que nós temos vem de lá, toda essa beleza”.
Teté também compartilha o orgulho de ter transformado esse sentimento em obra. Para além das composições que fez ao longo da vida, considera as músicas dedicadas ao Lenheiro como um marco em sua produção artística.
“Me sinto muito feliz, porque a vida toda fiz música, mas esse trabalho com a serra, realmente, considero uma obra. É visando o crescimento e a proteção da nossa querida Serra do Lenheiro”, afirma. Com isso, reafirma sua missão de artista: transformar afeto em voz, e voz em instrumento de resistência e cuidado com o território.

O guia turístico Luiz Antônio Miranda compartilhou sobre sua infância difícil. Aos cinco anos, perdeu sua mãe e foi ali, na Serra do Lenheiro, que teve a oportunidade de criar laços com um lugar repleto de beleza naturais, ervas medicinais, lugares para nadar e se divertir. “A Serra passou a ser a minha vida! Ela é tudo, representa a minha essência. […] a serra não é só minha, ela é de todo mundo, ela pertence a toda uma biosfera”.
Antes mesmo de se tornar guia, Miranda já sentia uma conexão com a Serra do Lenheiro, enxergando nela um símbolo de resistência e memória. Para ele, o local não significa apenas resistência ambiental, mas todo um território que guarda histórias, tradições e a identidade de São João del-Rei. Além disso, ele comenta sobre a ligação da serra do passado ao presente, lembrando que suas trilhas foram percorridas por gerações, desde os povos originários até os moradores atuais. Essa percepção reforça a importância da preservação não só do meio ambiente, mas também das narrativas que fazem da serra um espaço de pertencimento.
Hoje, como guia, Miranda se dedica a transmitir esse legado, mostrando que a Serra do Lenheiro é um bem comum que precisa ser valorizado. Enquanto compartilha seus conhecimentos sobre o espaço, ele espera inspirar outros a enxergarem a serra como parte fundamental são-joanense.

O valor simbólico e afetivo da Serra do Lenheiro se consolida por meio da vivência cotidiana de moradores e frequentadores da região. Mais do que vestígios arqueológicos ou títulos oficiais de tombamento, a serra abriga manifestações de memória que se revelam nas caminhadas organizadas por Manoel, nas composições de Teté Santos e nos relatos de quem cresceu em contato direto com o local, como o Miranda.
As lembranças compartilhadas, as experiências pessoais e o vínculo afetivo com a paisagem constroem um senso de pertencimento, perceptível tanto nas narrativas quanto nas ações voltadas à sua preservação. A Serra, nesse contexto, se afirma não apenas como patrimônio histórico e natural, mas como espaço de identidade coletiva e projeção para o futuro.
Série especial
O portal Notícias del-Rei publica a série especial “Serra do Lenheiro: Território, Memória e Vivência”, uma produção dos repórteres Ana Luiza Reis, Érika Franco, Lívia Fernandes, Giulianna Andrade e Igor Chaves, sob supervisão da jornalista Márcia Rosa.
Supervisão: Márcia Rosa
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Igor Chaves
