SERRA DO LENHEIRO GUARDA MEMÓRIAS DA MINERAÇÃO, DA FÉ E DA RESISTÊNCIA EM SJDR

Ana Luiza Reis, Érika Franco, Lívia Fernandes,
Giulianna Andrade e Igor Chaves

“Nós somos fruto da Serra do Lenheiro.” É assim que o historiador Bruno Campos entende a relação emocional e histórica entre a cidade de São João del-Rei e a serra. Um território de memória, identidade e riqueza ambiental. De caminhos coloniais a registros rupestres, de práticas religiosas populares a marcas da resistência, é um espaço conjunto de natureza e história, refletindo, a todo tempo, o passado no presente.

Em diferentes épocas o território foi explorado pela população, o próprio nome “Lenheiro” faz referência ao principal elemento de subsistência que a Serra oferecia: a lenha. Bruno explica que a lenha era extremamente importante antes da energia elétrica, pois era o que possibilitava as atividades básicas do cotidiano. “As pessoas dependiam da Serra para cozinhar, para aquecer, para viver”.

A serra é um arquivo a céu aberto, com marcas deixadas por gerações inteiras que por ali viveram, trabalharam e resistiram. Marcas de mineração, sinais do período da escravidão, o cotidiano de uma cidade que já viveu em profunda conexão com aquele território: “Sem ter uma palavra escrita, ela te fala muito. Fala sobre o hoje, ontem, o passado”, afirma Bruno.

O historiador também ressalta que o tempo transformou essa relação. “Se antes a Serra era parte do cotidiano e da economia local, hoje ela se tornou cenário distante para muitos moradores, à medida que a cidade cresceu e a dependência direta daquele espaço diminuiu”, conclui.

 O tombamento da Serra do Lenheiro como patrimônio, que aconteceu em 20 de Abril de 1988, se mostrou como um importante documento de proteção. Para Bruno, a preservação desse território é também um exercício de memória, seja individual ou social, que busca reconectar a comunidade com sua própria história. Segundo ele, o sentimento de pertencimento com o local poderá resgatar a identidade que se perdeu. 

O guia turístico Luiz Antônio Miranda explica que a área era uma fonte de obter alimentação, como por exemplo: os peixes dos córregos, animais, frutos como gabirobas, araçás, maçãs dos campos e amendoim-do-campo (apuaia). Atualmente ainda há moradores próximos da serra que dependem de suas reservas naturais, como a água que abastece os bairros que ainda não possuem saneamento do DAMAE.

De modo geral, o local sempre teve muitos recursos naturais e na época colonial era visto como um empreendimento muito lucrativo, principalmente para extração de ouro, o que logo atraiu a atenção de ingleses e aumentou o investimento para explorar ainda mais o perímetro rochoso.

De acordo com Pedro Barros Júnior, em sua dissertação de mestrado, a obra ambiciosa conhecida como “O Canal dos Ingleses” foi realizada para acelerar o processo de extração de ouro e abriu um canal comprido de cerca de 12km de extensão para lavagem do cascalho aurífero, o projeto engenhoso ocorreu em meados de 1740 e foi feito pela mão de obra escrava. 

Passeio com piquenique na serra, antiga tradição são-joanense. Autor e data não identificados. Aproximadamente na primeira metade da década de 1950. (Foto: reprodução / Acervo familiar – arquivo Ulisses Passarelli)

O geocientista explica que esse grande feito foi um marco histórico para o desenvolvimento industrial na cidade, uma vez que fomentou ainda mais o processo de mineração, supriu a necessidade hídrica da população, e, mais adiante na linha do tempo, gerou a instalação de fábricas e engenhos.

Apesar dessa obra marcante, a história do Lenheiro precede o período colonial. Existem marcas dos povos originários por diferentes extensões e de diversas maneiras. Essas manifestações foram descobertas e registradas por um grupo de pesquisadores interessados em saber mais sobre o local que deu “vida” à cidade de São João del-Rei no livro “Dossiê Serra do Lenheiro” (2023).

Histórias contadas nas rochas

O material coletado pelo grupo envolvido no dossiê é fruto de muito estudo, pesquisa e história com a serra. Ele revela e explica detalhes das pinturas rupestres, como os materiais utilizados como “tinta” e as cenas retratadas de forma artística pelos povos originários.

Vários turistas são atraídos pelo interesse em conhecer esses sítios arqueológicos, o Canal dos Ingleses, a fauna e a flora mineira presente nesse local. Além das famosas pinturas, há também outras marcas da presença humana em tempos remotos, como as gravuras entalhadas nas rochas.

Esses sítios estão localizados em três pontos diferentes, sendo dois sítios arqueológicos na área dos Três Pontões e um na Serra do Rio das Mortes. São protegidos por alambrados e por placas educativas que promovem reflexão sobre a conservação do local, além do próprio tombamento em si.

Pinturas rupestre em paredão rochoso. (Foto: Ana Luiza Reis)

O reconhecimento do local como patrimônio cultural municipal – consolidado pelo tombamento realizado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural -, é um ato que representou um passo importante na proteção da área, embora ainda frágil diante das ameaças constantes, como a mineração especulativa.

“O tombamento é uma ferramenta de caráter jurídico. No caso de uma grande ameaça à Serra, você tem uma ferramenta jurídica para poder conseguir segurar isso. É principalmente essa ferramenta que resguarda uma área no caso de grandes impactos.”, explica o geógrafo e autor do dossiê, Ulisses Passarelli

Além disso, reconhecer que a preservação não se limita ao patrimônio físico é fundamental, uma vez que ela também amplia a qualidade de vida e fortalece os laços entre o lugar e a comunidade.

Linha do Tempo da Serra do Lenheiro. (Imagem: reprodução / Érika Franco)

Série especial

O portal Notícias del-Rei publica a série especial “Serra do Lenheiro: Território, Memória e Vivência”, uma produção dos repórteres Ana Luiza Reis, Érika Franco, Lívia Fernandes, Giulianna Andrade e Igor Chaves, sob supervisão da jornalista Márcia Rosa.


Supervisão: Márcia Rosa

Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: reprodução / Acervo familiar – arquivo Ulisses Passarelli

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