Jackeline Souza *
Nos últimos anos, tornou-se quase obrigatório abrir espaço para pessoas negras em diferentes setores da sociedade. Esse movimento é fruto da luta histórica do movimento negro e da cobrança de uma juventude atenta à importância da representatividade. A televisão, especialmente as novelas, entrou nesse processo. Porém, ainda fica a dúvida: estamos diante de uma representatividade real ou apenas de um gesto simbólico para evitar críticas?
Na reta final de “Vale Tudo“, chama atenção o apagamento da protagonista Raquel Acioli, interpretada por Taís Araújo. Coincidência ou não, esse sumiço ocorre depois de a atriz expressar frustração com os rumos da personagem, que voltou à pobreza sem repetir a trajetória de ascensão da mocinha de 1988.
É verdade que, a partir de 2022, houve um avanço no protagonismo de pessoas negras nas novelas, rompendo com estereótipos clássicos: do papel hipersexualizado ao bandido ou subordinado. Mas é importante separar representação de representatividade. Estar na cena não basta. O que transforma é a narrativa construída: quando um personagem negro rompe preconceitos, inspira e conecta com o público, abre portas para uma mudança cultural real.
No caso de “Vale Tudo”, o enredo revela um limite. Mesmo com uma protagonista negra, a forma como a personagem foi tratada indica que presença não garante respeito. Por que a protagonista quase desaparece na reta final? Que mensagem se passa quando uma atriz negra, ao criticar, parece perder espaço na trama?
O Brasil segue mostrando, até na ficção, que quem ousa falar corre o risco de ser silenciado. Inclusão sem pertencimento verdadeiro é exclusão disfarçada.
Representatividade de fato não se resume à escalação de elenco, mas ao reconhecimento de trajetórias dignas e complexas, sem que vozes críticas sejam apagadas.
Imagem de destaque: reprodução / TV Globo – todos os direitos garantidos
* Jackeline é jornalista e tem pesquisas acadêmicas ligadas a representativa da população negra nas telenovelas brasileiras.
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