ARTIGO DE OPINIÃO: MANDATOS ELETIVOS E COMUNICAÇÃO POLÍTICA – POR QUE NEM TODO ERRO É DE REDE SOCIAL

Arthur Raposo Gomes

Nem tudo que dá errado é problema de comunicação. Nem tudo que não engaja é responsabilidade do “menino lá das redes sociais”. Nem toda crise se resolve com nota oficial, um vídeo bem editado ou um card bonito. E, principalmente: nenhuma estratégia de comunicação funciona sem política viva e gestão de verdade ao lado.

Em 2025, a desconexão entre imagem e ação, infelizmente, se tornou um fenômeno evidente no setor público e em mandatos parlamentares. Há quem tenha uma presença digital impecável, com estética moderna e narrativa emocionalmente articulada, mas que desmorona diante do básico: escutar, executar e prestar contas. Há também quem tenha ações sólidas, mas que não sabe fazer a tradução disso à “gramática midiática” e, por isso, muitas vezes, acaba por sumir nas plataformas digitais que seguem a lógica dos algoritmos – que, diga-se de passagem, não são isentos.

A verdade é que comunicação, gestão e política formam um tripé inseparável. Quando uma dessas pernas falha, “todo o projeto fica instável”. E o erro mais comum é usar a comunicação como muleta, ou bode expiatório, para esconder falhas estruturais.

“Divulga melhor isso aí!”, “tem que fazer o card” ou “ele não vai dar conta” são frases comuns de serem ouvidas em organizações e que denunciam uma prática injusta: responsabilizar profissionais de comunicação por falhas que, na verdade, são de gestão, planejamento ou até de projeto político. É o clássico: “culpar o mensageiro”.

Sem gestão, qualquer esforço de comunicação vira maquiagem. Se não há política (no sentido de projeto mesmo, o que inclui escuta e articulação), a comunicação torna-se publicidade vazia. Mas também, se não há comunicação, até a melhor gestão e a política mais compromissada podem parecer insignificantes.

É nessa articulação que reside a força de um mandato ou de uma liderança: quando a política mobiliza, a gestão realiza e a comunicação conecta tudo isso em discurso, memória e pertencimento.

Infelizmente, o que é muitas vezes percebido são episódios em que profissionais de comunicação são chamados apenas para “postar”, não participando de decisões importantes, e até mesmo sendo acionados tardiamente – geralmente, quando algo já deu errado.

É válido ressaltar, então, que estratégia de comunicação não é mágica. Exige dados, envolve interpretação do cenário, construção de vínculos e mediação entre ação e percepção. Não adianta contratar a melhor equipe se não há um projeto bem explicado, decisões bem tomadas e coerência entre o que se promete e o que se faz.

Assim, é preciso abandonar a linha de pensamento da culpabilização e investir em integração. Reunir quem comunica, quem planeja e realiza, e, claro, quem decide. Estabelecer rotinas conjuntas, fluxos de informação, escuta e visão estratégica. Na “era da (super) midiatização”, a presença nas mídias sociais é importante, mas nenhum mandato se sustenta com curtidas, comentários e compartilhamentos. Mas também não há mandato que sobreviva no mais absoluto silêncio, seja on-line, seja off-line.

E para quem insiste em culpar a comunicação por tudo, fica a pergunta: será que o problema é mesmo o card? Ou o que ele tenta encobrir?

Aguardemos o passar dos dias…


Imagem de destaque: reprodução / banco de imagens – Freepik

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