TIAGO TROTTA E “A ENCICLOPÉDIA DE FANTASMAS”: UM DISCO SOBRE TUDO QUE (AINDA) ASSOMBRA

Wanessa Christine e Jhonatan Marques

Em um estúdio improvisado em sua casa, cercado por instrumentos, cabos e muitas ideias, o multi-instrumentista Tiago Trotta, de 26 anos, dá vida à sua arte. Em entrevista ao Notícias del-Rei, ele compartilha os bastidores da criação e do lançamento de seu primeiro álbum solo: “A Enciclopédia de Fantasmas“. Com sete faixas (ou “sete fantasmas”, como define), o disco é uma jornada íntima e subjetiva, construída a partir de experiências pessoais e sonoridades que cruzam estilos e referências.

A ideia do álbum surgiu ainda em 2020, no contexto da pandemia. Naquele momento, Tiago começou a reunir composições com o desejo de criar um trabalho mais consolidado. No entanto, por conta das limitações técnicas e da paralisação do setor cultural, o projeto acabou sendo deixado de lado. Só em 2022 ele retomou a proposta, ao perceber que as músicas mais recentes compartilhavam algo em comum.

“Todas as músicas abordam alguma ‘coisa que assombra’, vamos dizer assim. Tem música que fala sobre o próprio eu lírico, tem música que fala sobre outras pessoas, sobre fatos ou sentimentos que, às vezes, de repente, você lembra deles, sabe? E eles voltam pra te assombrar, por um momento. Por isso são fantasmas. ‘A Enciclopédia de Fantasmas’”, explica.

Capa do disco “A Enciclopédia de Fantasmas” e faixas no Spotify (Imagens: Acervo Digital)

Na busca por uma sonoridade própria, Tiago mistura ritmos brasileiros, jazz e rock alternativo. O resultado é algo que ele mesmo chama de “rock tropical”. Todo o processo de produção foi feito de forma independente e pessoal – uma característica que já marca sua trajetória. Ele conta que gravou o álbum enquanto ainda morava com os pais, em outra casa. Inicialmente, a ideia era produzir e mixar tudo sozinho, como já havia feito em seus primeiros lançamentos, em 2019 e 2020. No entanto, ao perceber que trabalhar completamente sozinho não era tão agradável nem produtivo, ao ponto de passar horas e até dias tentando mixar as faixas, mas o resultado nunca o satisfazia, isso o levou à conclusão de que, se insistisse em fazer tudo por conta própria, o disco provavelmente não sairia.

Com isso, o apoio de amigos foi essencial para viabilizar o álbum. Rafael Asa, ex-aluno da UFSJ, ficou responsável pela mixagem. Outro parceiro fundamental foi Rick Vargas, que gravou congas, bem como o baterista e professor André Mendes, que gravou congas também e ensinou percussão ao artista, além de participar de faixas como “Blues do Cemitério”, “Quem me viu, quem me vê”, “No mesmo horário, no mesmo lugar” e “Desamor em Rapsódias”. “Eles foram o diferencial pra esse disco existir”, diz, carinhosamente. As baterias foram o próprio Tiago que gravou.

Entre as músicas do álbum, “Fantalogia Empírica” se destacou como a mais desafiadora, por conta das mudanças de ritmo ao longo da faixa. Tiago explica que, apesar de ter conseguido gravá-la sozinho, o verdadeiro desafio foi apresentá-la ao vivo. “Eu tive que fazer as outras pessoas da banda entenderem uma coisa que eu já tinha entendido dentro da minha cabeça, então foi algo bem desafiador. Assim como ‘Torpe Coração’. Essas músicas são mais desafiadoras no ao vivo, é difícil fazer soar legal”, comenta.

Já a faixa mais especial para o músico é “Desamor em Rapsódias”, que nasceu de um poema escrito por seu melhor amigo, Christian, em 2022, e que, mesmo sendo originalmente um texto poético, acabou inspirando Tiago a compor mais.

Nem todas as canções falam de outras pessoas. A faixa “Ei, Cuzão” é um exemplo de autorretrato, em que o músico expõe questões internas e conflitos pessoais. Talvez seja o maior fantasma de todos porque é o fantasma de si próprio. Sem entrar em muitos detalhes, ele explica que a música fala sobre culpa, arrependimento e uma tentativa de seguir em frente.

Mesmo com o foco na carreira solo, Tiago também integra a banda “Remédio Sem Causa“, que lançou recentemente o álbum “Ruptura”. Ele garante que não há conflito entre os projetos e que ambos se complementam.

Ao pensar no público, Tiago revela que quis criar um álbum direto, sem excessos. As sete faixas somam 30 minutos — tempo que considera ideal para uma escuta satisfatória e sem pular nenhuma música.

“Eu acho que é um tempo aceitável pra uma pessoa escutar um disco inteiro. […] Espero que ela tenha uma experiência completa e sem redundância”, finaliza.

Serviço

“A Enciclopédia de Fantasmas” está disponível em todas as plataformas digitais.

Imagens de divulgação do álbum (Fotos: Acervo digital)


Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: acervo digital

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