ENTRE O JORNALISMO ESPORTIVO E A COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL, ADRIANA SPINELLI DEFENDE UM JORNALISMO ÉTICO E CRIATIVO

Ana Cláudia Almeida,
Laura Brêtas e Maria Luiza Maia

Adriana Spinelli nasceu e foi criada em São João del-Rei, Minas Gerais. Hoje, prestes a completar 60 anos, costuma dizer que, na verdade, nasceu jornalista. Aos oito anos, Adriana começou a registrar em um diário o cotidiano dos seus vizinhos. Com a ajuda da mãe, que corrigia os erros gramaticais, começou a construir seu nome de peso. Desde então, nunca houve dúvida de que aquela criança viria a ser a comunicadora que é hoje. 

Para a conversa com o curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Adriana fala que fez questão de escolher “a dedo” a roupa que usaria. Vestiu calça e blusa pretas, blazer cinza e uma pashmina da mesma cor. Tal combinação contrastava diretamente com seus fios grisalhos entre as mechas escuras. No meio da conversa, agitada e com bom humor ela solta: “estou morrendo de calor!”. E é assim, com leveza e espontaneidade, que Adriana lida, e sempre lidou, com as situações da vida.

Jornalista ministrou palestra, recentemente, na Universidade Federal de São João del-Rei (Foto: Najla Passos)

Formada pela PUC Minas, ela narra que é o lugar onde conheceu seu marido e também jornalista, Paulo César Jardim, carinhosamente chamado de “PC”. Juntos há mais de 40 anos, Adriana comenta que a relação se baseia no amor, respeito e alegria em partilhar uma paixão em comum: o Jornalismo.

Mariana e Pedro Paulo Spinelli, filhos do casal, cresceram entre as pautas, prazos apertados e coberturas, já entendendo como é a rotina dos pais e os admirando. A conexão foi tanta que, hoje, os dois trabalham com jornalismo esportivo; Mariana na “ESPM”, e Pedro Paulo como produtor no “Globo Esporte”. “Morro de orgulho e alegria deles porque morro de orgulho e alegria da minha profissão”, diz Adriana, sorrindo de orelha a orelha.

Entre tantas paixões – o Jornalismo, a família, a vida em Minas e o seu novo fusca – existe uma em especial que chama atenção: o Clube Atlético Mineiro. Torcedora fanática do Galo, Adriana vibra, sofre e compartilha mais esse amor com os filhos.

Trajetória profissional

Com uma carreira que ultrapassa quatro décadas, Adriana Spinelli construiu uma trajetória marcada pelo pioneirismo e paixão pela comunicação. Sua história no Jornalismo começou no rádio, passando pela Rádio Inconfidência e pela “Rádio Capital”, onde conquistou suas primeiras oportunidades profissionais. Logo depois, migrou para a televisão, atuando na “TV Manchete”.

Em 1991, Adriana ingressou no “Grupo Globo”, onde atuou como produtora e repórter do “Jornal Nacional”, realizando matérias sobre trânsito, economia, cidades e temas do cotidiano. Apesar da experiência consolidada na cobertura de assuntos gerais, ela sempre buscou uma comunicação mais leve, descontraída e criativa.

Foi dentro da própria emissora que surgiu uma virada na carreira. A então diretora, Olga Curado, a chamou para apresentar um novo formato do “Globo Esporte”. Surpresa, Adriana perguntou o que aconteceria se não conseguisse se adaptar à nova função. A resposta foi direta: “rua”. O peso daquela frase não a intimidou. Mesmo sem nunca ter cogitado trabalhar com esporte, aceitou o desafio e se tornou uma das primeiras mulheres a comandar um programa esportivo em Minas Gerais, em um ambiente até então dominado por homens.

O jornalismo esportivo

Sua passagem pelo esporte marcou não apenas a própria trajetória, mas também abriu portas para muitas outras mulheres no jornalismo esportivo. Adriana levou para o esporte um olhar diferenciado, mais humano, que valorizava as histórias, os bastidores e o comportamento, aproximando o jornalismo esportivo do público de uma forma inovadora para a época.

Após nove anos na “Globo”, buscou mais autonomia e encontrou na “TV Alterosa”, afiliada do “SBT”, um espaço de liberdade para atuar como repórter e apresentadora esportiva. Nesse período, que ela considera um dos mais felizes da carreira, pôde criar pautas com mais humor, leveza e proximidade com o público. Ficaram marcadas histórias inusitadas, como a vez em que precisou se esconder dentro de um túmulo vazio para conseguir concluir uma reportagem no cemitério.

Além disso, Adriana também passou pela “Band”, fez alguns trabalhos na “TV Justiça” e integrou a equipe da Panamerican Sports Network (PSN), canal de esportes que operava para toda a América Latina.

O Galo e o Tribunal Regional do Trabalho de MG

Entre 2015 e 2019, Adriana atuou como repórter e apresentadora da “Galo TV”, canal oficial do Clube Atlético Mineiro. Ali, esteve à frente de coberturas, entrevistas e conteúdos especiais, sempre próxima do time e da torcida. Depois desse período, em 2019, migrou para a Secretaria de Comunicação do Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT-MG), onde trabalhou até 2022, dedicando-se à modernização e humanização da comunicação institucional do órgão.

Em 2022, Adriana retornou ao Atlético, dessa vez como superintendente de Comunicação, cargo que ocupou até 2024. Nesse período, liderou a comunicação institucional do clube, a assessoria de imprensa, as redes sociais e a “Galo TV”, sendo peça fundamental na gestão da imagem do clube e na construção de uma comunicação mais próxima e eficiente com a torcida.

Desde 2024, Adriana está novamente no TRT-MG, levando toda sua experiência no jornalismo esportivo e institucional para fortalecer a relação do tribunal com a sociedade, investindo em uma comunicação moderna, acessível e conectada com os novos tempos.

“Feminista sem saber”

Ao longo de toda a sua trajetória, Adriana Spinelli consolidou-se como uma das grandes referências no jornalismo esportivo feminino no Brasil. Sua história é marcada pela coragem, pela capacidade de se reinventar e pela luta por espaços mais igualitários no jornalismo esportivo. Como ela mesma afirma, foi “feminista sem saber”, desbravando espaços, enfrentando desafios e construindo uma carreira que inspira gerações de jornalistas.

A caminhada de Adriana é extensa e repleta de memórias; a jornalista respira esporte. Seu dom da oratória, combinado com o amplo conhecimento, marca sua presença. Nesse encontro, Adriana equilibra com maestria fatos cômicos e questões sérias que justificam a credibilidade que acompanha seu nome. 

De início, com foco em mudanças e na força estudantil presente no auditório, Adriana destaca alguns fenômenos negativos típicos da comunicação moderna. “Todo mundo fala, poucos escutam. Quase ninguém entende. Comentar hoje é um reflexo mais rápido do que entender”, diz ela citando Renato Dolci, especialista em tecnologia de dados.

Afastada atualmente das quatro linhas do campo, Adriana conduz a plateia atenta em uma jornada de descoberta da vida jornalística profissional. Quando fala sobre jornalismo, ela se mostra inquieta com a complexidade do tema: “a experiência de ser jornalista ou estar num clube ou num tribunal defendendo a instituição é bem desafiador. O repórter tem a missão de investigar, apurar, denunciar. Já na assessoria é ocultar, inverter, disfarçar. Eu aprendi tudo isso na marra“.

A palestra

A palestra de Adriana se organiza ao redor de momentos marcantes, mas também de obstáculos no jornalismo esportivo. Com mente espirituosa e grande paixão pela comunicação, ela encara temas como assédio, machismo e censura sofridos como parte do caminho que ajudou a moldar sua postura profissional. Acredita fielmente no jornalismo ético e criativo e, então, encoraja o público feminino: “nunca fiz jornalismo pensando em gênero, sempre fui livre no meu conteúdo. Sim, já sofri assédio e já passei por tudo nessa vida. Vocês, meninas, têm que ir construindo seu caminho. Isso que eu digo para a Mariana”.

Das orientações e conselhos às respostas mais autênticas, Adriana cativa todos alternando uma postura maternal com a de um brilhante comediante. No encontro de gerações, a comunicadora não apenas saudou os frutos da comunicação, como fez questão de plantar mais sementes e zelar pelo seu futuro.


Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: Najla Passos

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