MULHERES ENFRENTAM DESAFIOS DE ACESSO AO ESPORTE EM SÃO JOÃO DEL-REI

Ana Luiza Reis, Érika Franco,
Giulliana Andrade, Igor Chaves e Renata Resende

“Não, definitivamente não temos a mesma visibilidade nem o mesmo espaço.” É assim que a jogadora de futsal Lívia Maia, 21, responde ao ser pergunta sobre a igualdade de atenção entre os times feminino e masculino da Atlética Brutus, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). A ideia de Lívia é compartilhada por Amanda Neri Rocha, 22, estudante de Engenharia Elétrica da mesma universidade e jogadora de vôlei, que reforça: “o esporte feminino é muitas vezes tratado como secundário, com pouca divulgação na mídia local, patrocínios escassos e falta de espaços adequados para treinamento”. Ambas concordam que, quando se trata das experiências vividas por mulheres no esporte — seja ele universitário, amador ou profissional — a desigualdade ainda é regra, e não exceção.

No Brasil, mesmo que mais de 50% do time brasileiro para as Olimpíadas de Paris em 2024 tenha sido composto por mulheres, ainda há obstáculos a serem enfrentados com relação à participação feminina no esporte. O gênero feminino sofre discriminação e carece de incentivos — familiares ou financeiros — o que faz com que muitas meninas desistam de seus sonhos ainda cedo. Uma brasileira que decide se arriscar no mundo esportivo tem grandes chances de enfrentar preconceitos. Seja por sua cor ou por seu gênero, ela pode ser questionada ou subestimada, especialmente no futebol, onde muitas vezes não é reconhecida como atleta de verdade. Além disso, a pouca representatividade feminina na mídia em comparação aos homens reforça um ciclo de invisibilidade.

Essa ausência de representação nos meios de comunicação também está ligada à falta de patrocínio. De acordo com o Ministério do Esporte, através de um Diagnóstico de Futebol Feminino no Brasil, foi identificado que a categoria feminina ainda é amplamente amadora: 47,9% das atletas adultas não recebem salário e 70% precisam buscar outras fontes de renda para se manter.

Em São João del-Rei, a realidade não é diferente. O cenário ainda é marcado pela escassez de políticas públicas voltadas ao esporte feminino e pela ausência de estruturas adequadas para acolher e promover a presença de mulheres nas quadras e campos, como aponta o servidor municipal e ex-treinador de vôlei da escolinha do Sada Cruzeiro feminino no município, Cláudio Roberto Santos, 44. Para ele, a falta de visibilidade e apoio impacta diretamente o desempenho e a permanência das atletas: “a desigualdade de acesso a recursos, a visibilidade reduzida dos eventos femininos e a escassez de incentivo financeiro são obstáculos que precisam ser superados”.

Projeto Sada Vôlei premiada como Melhor do Ano de 2024. (Foto: reprodução / Instagram)

Amanda, que começou a jogar vôlei aos sete anos em uma escolinha da escola onde estudava, relembra com carinho o início da trajetória. “Eu sou apaixonada pelo esporte. Amo a adrenalina de estar em quadra, os desafios e as evoluções de cada treino. É onde meu coração fica tranquilo”, pontua. Apesar do amor pelo vôlei, ela reconhece que a falta de apoio ainda é uma barreira significativa. “Hoje treinamos com apenas duas bolas e a rede está em situação precária. Isso prejudica bastante a qualidade dos treinos”, garante.

Amanda durante jogo de vôlei pela Atlética Brutus. (Foto: Ana Luiza Reis)

Lívia lembra que o preconceito foi mais intenso em sua infância: “sim, muitas vezes, principalmente quando era mais nova. Como sempre joguei com meninos, era comum ouvir comentários desrespeitosos da torcida ou dos adversários. Felizmente, dentro das minhas equipes, sempre houve muito respeito”. Seu interesse pelo futsal surgiu aos sete anos, e, mesmo diante dos desafios, ela nunca deixou de lado o sonho de jogar.

Amanda também relata ter sido desafiada em relação ao gênero quando tentou se aventurar em outros esportes. “No esporte, algumas vezes já fui desafiada por ser mulher. Mas, aqui em São João, acredito que depois do futsal masculino, o vôlei feminino é quem tem mais visibilidade e oportunidades, então sempre foi bem tranquilo pra mim”, frisa. No entanto, ela reconhece que essa não é a realidade para todas as modalidades.

O próprio treinador Cláudio Roberto admite já ter presenciado episódios vexatórios e lamenta que ainda haja famílias que desestimulam a prática esportiva entre meninas, especialmente em modalidades vistas como “masculinas”: “esses preconceitos – muitas vezes invisíveis – impactam não apenas a motivação das atletas, mas também as estruturas de apoio essenciais para o desenvolvimento esportivo feminino”.

A desigualdade no esporte não é apenas cultural — é também histórica. Um exemplo claro é o artigo 54 do Decreto-Lei n.º 3.199, de 14 de abril de 1941, que limitava as modalidades esportivas permitidas às mulheres. Ainda hoje, o esporte permanece predominantemente masculino, não apenas entre atletas, mas também entre árbitros, dirigentes, técnicos e repórteres. Segundo a pesquisa “Perfil e Atuação dos Conselheiros Municipais de Esporte de Minas Gerais”, do Observatório do Esporte de Minas Gerais, apenas 26,3% dos conselheiros municipais de esporte eram mulheres em 2019.

Apesar das dificuldades, a percepção de que o cenário está mudando é compartilhada por Lívia e outras atletas: “acredito que sim, e de forma significativa. Antes, só se via futebol feminino em grandes competições, como Copas e Olimpíadas. Hoje, ele é muito mais comentado e valorizado na mídia”.

Amanda concorda e destaca a importância das iniciativas locais: “campeonatos universitários e intercolegiais têm um papel fundamental na valorização das atletas mulheres. Eles ajudam a formar uma cultura esportiva mais inclusiva e, com apoio da comunidade e das instituições de ensino, podem abrir portas para trajetórias profissionais no esporte”.

Questionada sobre o que diria a quem ainda acredita que o futsal feminino é “inferior”, Lívia aponta para o caminho da igualdade: “esse pensamento é muito limitado. O futebol feminino não é melhor nem pior que o masculino – são diferentes, principalmente por questões como investimento, visibilidade e cultura. O que falta é igualdade de oportunidades, não de talento”. E reforça: “quanto mais mulheres ocuparem esses espaços, mais forte e respeitado o esporte feminino se tornará.”


Edição: Najla Passos e Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: Ana Luiza Reis

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