DA COMUNICAÇÃO AO ATIVISMO: UMA TRAJETÓRIA MARCADA PELA LUTA

Raila Biaggio

Em meio às ruas de paralelepípedos e casarões históricos de São João del-Rei, Minas Gerais, um nome se destaca pela luta em busca de Direitos Humanos: Carlos Henrique Bem Gonçalves. Ele descobriu muito cedo que sua voz poderia ser uma ferramenta de transformação. Nascido há 40 anos, na cidade de Machado, no estado de Minas Gerais, ele cresceu em um ambiente que, embora tenha sido desafiante, o motivou a questionar e a lutar por mudanças.

Sua trajetória o levou ao Jornalismo, uma escolha que, logo depois, se entrelaçou com sua atuação na área da política e na área da pesquisa em Direitos Humanos, Análise do Discurso e relação entre linguagem e poder.

Infância e o início nas causas sociais: a formação de Carlos Bem

A infância e adolescência de Carlos Bem foram marcadas pela vivência na escola pública, no seu bairro e nas comunidades eclesiais de base da Igreja Católica. Desde muito jovem, teve uma percepção clara da desigualdade social que o cercava. Cresceu em uma família numerosa, com oito filhos, e seus pais, que só tiveram oportunidade de estudar até a quarta série, desempenhavam as seguintes funções: sua mãe era dona de casa e seu pai tratorista. Mesmo vivendo em um bairro pobre, a solidariedade e a força das redes de apoio comunitárias sempre estiveram presentes, com iniciativas como hortas comunitárias, que eram um símbolo de resistência contra a insegurança alimentar e a pobreza extrema. 

“Enfrentar a fome, a miséria e a extrema pobreza sempre foi uma questão muito presente na comunidade, no bairro onde eu morei. A solidariedade, as redes de apoio, era o pouco que a gente tinha, porque era uma época em que não existia Bolsa Família.”

Durante sua trajetória na escola pública, Carlos se envolveu ativamente com o movimento estudantil, o que foi um divisor de águas em sua formação e no seu interesse pela comunicação e política. No ensino médio, participou da fundação do Grêmio Estudantil de sua escola, onde foi um dos principais articuladores da organização de manifestações e campanhas de conscientização sobre os direitos dos estudantes e das juventudes. Sua escola, que tinha cerca de 2 mil alunos, foi palco de diversas ações, como programas de rádio durante os intervalos, onde se discutiam temas como educação de qualidade, direitos dos estudantes e da juventude e luta contra a desigualdade.

Carlos Bem: da luta estudantil à transformação do Movimento LGBT nas Vertentes

Carlos Bem tornou-se uma figura presente na luta pelos direitos humanos e na promoção da diversidade na região do Campo das Vertentes. Sua trajetória nesse enfrentamento teve início em São João del-Rei, onde, além de seu ativismo em outras frentes sociais, como o movimento sindical e estudantil, ele fundou o Movimento LGBT+ da Região das Vertentes. A criação do Movimento foi um marco, pois proporcionou um espaço para a luta contra o machismo, racismo, capacitismo e LGBTfobia, temas com os quais Carlos sempre se envolveu e lutou ativamente.

Ao longo de sua participação no movimento LGBT+, eram promovidos debates sobre a interseccionalidade, conceito que hoje é central em muitas discussões sociais, mas que já estava presente no seu ativismo desde o começo. A pluralidade do movimento, que incluía diferentes identidades e experiências, foi algo que Carlos procurou destacar e fortalecer em sua atuação, sempre buscando a inclusão de todos os grupos e promovendo uma luta mais justa e igualitária para todos os envolvidos.

“Dentro do próprio movimento LGBT já tinha uma diversidade sobre gênero, então, de certa forma, sempre participei, acompanhei o movimento de mulheres, sempre acompanhei as pautas, principalmente na liderança e protagonismo […] a interseccionalidade, que é esse conceito que a gente tá falando tanto hoje, a gente já vivia isso nessa diversidade toda do movimento”

Seus desafios e conquistas: uma luta contra a violência

Em sua trajetória de militância, Bem enfrentou muitos desafios, tanto no âmbito pessoal quanto no profissional. Na sua vida pessoal, seu maior desafio foi lidar com a violência e a exclusão que vivenciou durante sua adolescência. A violência física e simbólica eram constantes, tanto na escola, quanto nas ruas e até em casa. Os xingamentos e agressões, como ser chamado de “viado”, se tornaram constantes, refletindo uma sociedade que marginalizava quem não se enquadrava nos padrões tradicionais.

“Fui um adolescente ali, principalmente no início da adolescência, que apanhou muito na escola, que apanhou na rua, no bairro onde morei, que foi xingado, muitas vezes por pessoas que eu nem conheço e o motivo da violência era sempre esse, que eu era o viadinho, que eu queria ser mulher, então eu tinha que apanhar. Já apanhei muito dentro de casa também, pelo meu pai, principalmente. Então a violência, ela sempre marcou muito a minha infância e adolescência.”

Esses momentos de dor o levaram a um processo de autodescoberta e libertação da culpa imposta pela sociedade, transformando sua revolta em luta. Ele encontrou nos movimentos sociais um espaço de apoio onde canalizou suas experiências para a defesa dos direitos humanos. Bem, também ressalta as dificuldades que a comunidade ainda enfrenta, como violência simbólica, desemprego e acesso precário à saúde. Apesar desses entraves, ele permanece firme na luta, acreditando que o movimento LGBT da Região das Vertentes está em crescimento e que a transformação social é uma jornada sem volta.

Da militância à pesquisa sua vida dedicada aos Direitos Humanos

Durante anos, esteve à frente da luta pelos direitos LGBT, enfrentando desafios como a sobrecarga de trabalho e a falta de pessoas dispostas a entrar nessa luta. Carlos comenta que a visibilidade sempre recaiu sobre ele, especialmente devido à sua candidatura política e à necessidade de dar entrevistas em momentos em que outros ativistas temiam represálias. Hoje, Bem não está mais na linha de frente do movimento LGBT da Região Das Vertentes, porque se dedica exclusivamente à vida acadêmica. Ele está fazendo um pós-doutorado em linguística na Universidade Federal de Santa Catarina e se prepara para passar três anos em Florianópolis. Sua pesquisa foca nos movimentos de resistência protagonizados por mulheres negras e LGBTs na América Latina, analisando como esses grupos constroem possibilidades de esperança diante dos discursos de ódio, inspirando-se na pedagogia de Paulo Freire.

Carlos Bem nasceu em Machado, no Sul de Minas. (Foto: arquivo pessoal)

A decisão de se aprofundar na pesquisa acadêmica surgiu do desejo de entender como a linguagem é usada para violar direitos. Desde sua graduação, Bem se interessou pela área da ciências da linguagem e percebeu que queria explicar como discursos discriminatórios afetam a vida das pessoas. Sua pesquisa busca evidenciar esses impactos e contribuir para mudanças sociais e institucionais que regulam melhor o uso da linguagem na proteção dos direitos humanos.

Ele acredita que, embora tenha se afastado da militância tradicional, seu trabalho acadêmico continua sendo uma forma de ativismo, ajudando a construir novos caminhos para a igualdade e o respeito.

Projetos futuros e seu legado na luta LGBT

Bem conta que está escrevendo um livro sobre os anos de atuação do Movimento LGBT+ da Região das Vertentes, um projeto financiado pelo Prêmio de Cultura Viva do Ministério da Cultura. O livro busca resgatar memórias dessa trajetória , destacando momentos importantes, como o apoio às famílias das vítimas de assassinatos de pessoas LGBT+ e a luta pela aprovação de projetos de lei LGBT na Câmara de Vereadores.

Para ele, a documentação da história do movimento é essencial para garantir a continuidade da luta e o reconhecimento das conquistas. “A coisa do direito à cultura, direito à memória, eu acho que é importante que o movimento a gente consiga ter documentado essa memória”, afirma Carlos.

Ele reflete também sobre o avanço da luta LGBT na política, destacando que, embora o caminho ainda seja árduo, as conquistas são inegáveis. O ativista acredita que o debate sobre identidades e direitos não tem volta, mesmo diante da resistência de lideranças tradicionais, e que as novas gerações estão conquistando seu espaço e dessa maneira, avançando em direção a uma mudança estrutural.

A luta não para

Carlos relata que ser jovem e LGBT nunca foi uma tarefa fácil. Ele afirma que existe uma criminalização histórica e cultural da homossexualidade, da bissexualidade e da transexualidade, que, embora não esteja na lei, ainda se reflete nos padrões morais e nos chamados bons costumes.

“Eles sempre estarão aqui para apontar o dedo e dizer que a gente não é bom o suficiente, que a gente não tem plenitude em termos de realização, de felicidade, de sucesso”. No entanto, Bem vê na juventude uma força transformadora, que segundo ele, tem um brilho nos olhos, esperança no futuro e coragem de desafiar o que lhes é imposto.

Foto: Reprodução / Instagram – @movimentodhsjdr

Ele destaca que, atualmente, o cenário é muito melhor do que há 20 anos, mas também deixa claro que isso não aconteceu por acaso. Carlos tem orgulho de saber que sua juventude foi marcada pela militância e que ele ajudou a construir o movimento LGBT+ da Região Das Vertentes. Também enfatiza a importância das novas gerações sentirem o pulsar do próprio coração e lutarem por seus direitos.

“Não dê ouvidos para aqueles que vão estar sempre ali querendo te controlar, te regular, ou padronizar o que você pode ou não pode fazer, o que você pode ou não pode ser”, ressalta. No fim, para Carlos Henrique Bem Gonçalves, a luta precisa continuar. Ele acredita que a juventude deve seguir acreditando, resistindo e transformando, pois o futuro é construído agora.


Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: Reprodução / Instagram: @movimentodhsjdr

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