Erick Azevedo, Felipe Rocha,
Juarez Cruz, Rafael Alonso e Raila Biaggio
A montanhosa região do Campo das Vertentes é caracterizada por belas paisagens formadas pela transição entre Cerrado e Mata Atlântica. Com serras, cachoeiras e rios, a região possui grande potencial para o ecoturismo, que alia a preservação ambiental ao desenvolvimento econômico e social das comunidades locais. Além da geração de renda, valoriza e protege a fauna e flora. No entanto, há desafios na manutenção dessas áreas e na redução da degradação ambiental.
Com altitude máxima de 1.430 metros, a Serra de São José tem 12 km de extensão e diversas trilhas que levam aos mirantes, passando pela Calçada dos Escravos, construída no século XVIII. A formação abriga uma diversidade de fauna e flora, com a presença da Mata Atlântica e diversas espécies de libélulas. Já a Serra do Lenheiro, uma extensão da Serra de São José, está a oeste e noroeste de São João del-Rei. Formada por quartzito, tem 1,6 bilhões de anos e altitude máxima de 1.218 metros. A madeira e as pedras extraídas dali foram usadas na construção de igrejas e pontes da cidade. Entre seus atrativos estão pinturas rupestres, Canal dos Ingleses, Gruta do Caititu e Poço dos Sete Metros e Poça d’água. Ela também é fonte de recursos, já que possui cursos d’água essenciais para o abastecimento da população local.
Dalton Cipriani, guia e proprietário da “Uai Trip”, trabalha com ecoturismo há 24 anos. Ele fundou, com amigos, a “Caminhos e Trilhas”, a mais antiga empresa de ecoturismo de Tiradentes. Ele lembra que, há anos, o turismo local era restrito, sem grandes pousadas ou infraestrutura. Segundo ele, o ecoturismo cresce, mas ainda é complementar ao turismo cultural e gastronômico. “Muito diferente da cidade que vocês conhecem hoje. Era um turismo bem mais setorizado, não tinha pousadas grandes, hoteis, com a capacidade que existe hoje. Era uma cidade bem diferente mesmo e na época fomos pioneiros de trabalhar com ecoturismo, mais especificamente falando, com as caminhadas na Serra de São José”, reflete.

Assimetrias no desenvolvimento do ecoturismo
O ecoturismo na região atrai diferentes pessoas para a Serra. Dalton conta da dificuldade de se traçar um perfil da clientela depois de 25 anos, por ser um público eclético, como jovens, idosos, estrangeiros, mulheres sozinhas e famílias, principalmente do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e estrangeiros. Além das caminhadas, Dalton oferece passeios de bicicleta, cavalo e 4×4.
Apesar do potencial, a Serra de São José enfrenta entraves burocráticos. A área é protegida pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) e conta com três unidades administradas pelo órgão: A Área de Proteção Ambiental (APA) São José, o Refúgio Estadual de Vida Silvestre Libélulas da Serra de São José e a Área de Proteção Especial Serra São José, que somam 4.758 hectares.
Dalton menciona restrições quanto à prática de algumas modalidades esportivas e contextualiza a relação da Serra com o IEF. “Na década de 90, anos 2000, tinha motocross, o pessoal passava pela trilha do Mangue. A gestão do IEF é muito fechada. Fiz uma graduação em Gestão Ambiental e tinha um projeto de extensão que propus para a gestão da APA, no que eu me propunha, junto com as agências locais aqui, a ter um plano de manutenção das trilhas porque tem muita erosão e isso causa acidentes, causa problemas com a flora e fauna local. Flora soterrada, fauna sucumbida por essas trilhas que vão abrindo grandes galerias. Só que é muito burocrático. A gente tem que ir lá, mostrar onde está o defeito, o IEF tem que fazer uma licitação, ir lá e não vai, enfim… Ao mesmo tempo que se pensa em preservar, as manutenções não são feitas. O pessoal do IEF é super solícito, a gente conversa, mas em todo e qualquer governo, não é de hoje, alegam que não tem estrutura, mão de obra, que não tem veículo capaz o suficiente de gerir e fazer esse patrulhamento”.
Ao mesmo tempo que há um aproveitamento deficitário de algumas práticas, há também uma preocupação com a conservação ambiental. Apesar do decreto da Assembleia Legislativa de Minas, que desde 1990 declara a Serra como uma APA, a proteção ambiental pelo instituto possui dificuldades de recair a todas as localidades da Serra de forma homogênea, já que sofre com queimadas, atividade pecuária e degradação causada por parte dos frequentadores. Além destes fatores, diferentemente de outras unidades de conservação que possuem barreiras, a Serra já era usada com várias atribuições.
Dalton ressalta a existência prévia de todo um ecossistema urbano em volta da Serra de São José: “todas as medidas de proteção, fechar trilha, impedir que entre moto e tal, é muito difícil. Todo município tem uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete entradas para a Serra. Fica muito difícil implementar qualquer política de segurança nesse sentido”.
Apesar das ressalvas levantadas, Dalton enxerga a situação da Serra com olhar positivo: “acho que ela é muito bem preservada. Lógico que tem um pedaço que é reservado para mineração, mas, ainda assim, uma mineração com baixo poder de degradação, se comparado com outras áreas de mineração, como Ouro Preto, Mariana e Brumadinho. Se fosse para marcar aí um nível de 0 a 10, eu digo que o nível de preservação, esteja próximo de um 7, um 6,5. Pode melhorar, mas ainda dentro de uma média boa”.
Perguntado sobre a relação dos agentes políticos locais com o setor do ecoturismo, Cipriani revela haver pouca interferência, sendo a presença mais notada em momentos de elaboração de algum material para posterior divulgação ou reportagem. Para ele, essa postura mais neutra pode ser benéfica. “Não é muita atribuição de político não, quanto menos político, melhor. Não atrapalhando a gente já é um benefício. Nunca teve nenhum envolvimento para projeto, para criar nada. Normalmente os assuntos tratados da Serra São José são via IEF. A gente precisa de um prefeito quando vai tratar de assunto como Estrada Real, esse tipo de coisa que a gente trabalha com os 4×4, fora isso, nada mais”, avalia.
Inclusão social na natureza
Em São João del-Rei, o projeto ALA, fundado por Gabriel Tollentino há 12 anos, promove a prática esportiva para as pessoas que utilizam cadeira de rodas, permitindo-lhes contato com a natureza. A Serra de São José é palco para as corridas do grupo. Gabriel conta que a ideia surgiu de sua própria experiência nas serras e do desejo de compartilhar esse ambiente.
Ele afirma que a beleza da Serra de São José motivou a equipe a escolher o local para as corridas. “Estar no alto de uma montanha é algo extremamente único e poder proporcionar isso para as pessoas que não conseguiriam sozinhas é uma felicidade imensurável”, conta. Sobre o surgimento da iniciativa, o fundador explica que frequentava as serras desde jovem e daí partiu a vontade de proporcionar esses momentos também para pessoas com deficiência.
Questionado sobre os desafios que enfrentam nesse processo, Gabriel explica: “levar uma pessoa com deficiência para o alto de uma montanha é uma atividade extremamente complexa e requer vários cuidados, desde logística, equipe bem preparada, presença de médicos e bombeiros, equipamentos específicos, etc”.
No entanto, a equipe não está sozinha, segundo Tollentino, o grupo conta com apoio de parceiros como a AMG desde 2018 e, recentemente, a Marluvas. Para acompanhar o projeto, basta seguir @equipe.ala no Instagram.
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Totem Marco Zero da Estrada Real, Santa Cruz de Minas / Foto: Juarez Cruz
