Pedro Malachias Furtado
O estigma relacionado à saúde mental afeta diversas esferas sociais. O preconceito, o medo e a vergonha de falar abertamente sobre o assunto mantêm as pessoas afastadas da busca por ajuda psicológica. Um dos contextos em que esse estigma impacta diretamente as pessoas é no meio esportivo, principalmente entre atletas de alto rendimento. As problemáticas que envolvem esses atletas podem ser diversas: a pressão exercida pelo público que os acompanha, as críticas da mídia, traumas do passado ou dificuldades em lidar com o amadurecimento dentro do esporte, gerando um excesso de expectativas frustradas.
Existem vários motivos pelos quais os atletas de alto desempenho podem optar por não divulgar seu estado de saúde mental e buscar apoio. Assim como na população em geral, eles temem lidar com o estigma associado às doenças mentais e as consequências que daí decorrem. Talvez o mais relevante seja o fato de muitos atletas não desejarem interromper suas carreiras. Poucos exemplos de atletas profissionais que compartilharam suas dificuldades em lidar com a saúde mental podem ser citados, mas o caso do atleta Richarlison de Andrade nos dá uma noção do quanto isso pode afetar a vida de um esportista.
Richarlison é um atleta de futebol profissional que atua pelo time londrino Tottenham e pela seleção brasileira. Em entrevista ao canal esportivo ESPN Brasil, em 2024, ele falou sobre as dificuldades que enfrentou após a Copa do Mundo de 2022. Aqueles que o chamavam de herói enquanto ele marcava belos gols no mundial passaram a tecer diversas críticas injustas após a eliminação da seleção. Somado a alguns problemas familiares, foi quando ele atingiu o fundo do poço.
Apesar dos riscos, não existe uma estrutura ou modelo de atendimento abrangente para apoiar e responder às necessidades de saúde mental de atletas de elite. Além disso, os atletas agem de acordo com suas próprias atitudes, crenças e opiniões em relação à saúde mental, o que muitas vezes os impede de buscar ajuda.
Dessa forma, Richarlison procurou ajuda por conta própria, após quase desistir do seu sonho de infância. Na entrevista, ele declarou, emocionado. “Eu já não tinha vontade de ir treinar… a psicóloga salvou a minha vida”. É uma história de superação que nos faz refletir sobre como, em um esporte do tamanho do futebol, que exige tanta dedicação e cobrança dos profissionais, ainda não existe uma estrutura que ampare e trate a saúde mental desses jogadores desde as categorias de base.
Muitos desses esportistas, principalmente em países subdesenvolvidos, vêm da periferia e buscam a oportunidade de ascensão por meio do futebol. Abdicar do convívio familiar e ingressar em outra cidade ou estado para a realização de um sonho acaba se tornando a maior dificuldade, mas também a maior motivação desses atletas. No entanto, para que isso não se torne um peso no futuro, é necessário investir no bem-estar do atleta, tanto físico quanto mental.
O acompanhamento psicológico deve abranger tanto aspectos técnicos de desenvolvimento mental e controle emocional quanto aspectos subjetivos do indivíduo, com psicólogos do esporte e psicólogos clínicos que acompanhem os atletas em suas questões psicológicas específicas e gerais, abordando suas relações familiares, sociais e intimidade.
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Edição: Arthur Raposo Gomes
